quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ROBERT DESNOS: DOIS POEMAS E MINHAS TRADUÇÕES

À esquerda, Robert Desnos no auge de sua criação e atividades, clicado por Man Ray. À direita, última foto a que se tem notícias, já no campo de concentração onde veio a falecer.
ROBERT DESNOS nasceu em Paris no dia 4 de julho de 1900. Morreu de tifo no dia 8 de junho de 1945, com a idade de 44 anos, no campo de concentração de Theresienstadt, na Tchecoslováquia, um mês após a liberação do campo pelos russos. Membro do grupo surrealista desde 1922, ele rompe com o movimento quando André Breton insiste em orientá-lo ao Partido Comunista. Ele trabalha, então, no jornalismo, em rádios e no cinema. Preocupado com o recrudescimento do fascismo na Europa, ele começa a participar do movimento de resistência e se une aos movimentos intelectuais antifascistas como a Associação dos escritores et artistas revolucionários entre outros. Em 1940, após a vitória da Alemanha nazista sobre a França, ele retoma o ofício de jornalista no “Aujourd’hui” onde, apesar da censura alemã, ele publica artigos de literatura que encorajam a luta pela liberdade). A partir de 1942, ele participa da rede de Resistência AGIR. Ele continua em suas atividades de resistência até sua prisão no dia 22 de fevereiro de 1944. Sua obra é formada por várias coletâneas de poemas publicados entre 1923 e 1943, ensaios críticos sobre arte, cinema e música.


Eu Sonhei Tanto Contigo

Eu sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade.
É ainda tempo de alcançar este corpo vivo
E beijar nesta boca o nascimento
Da voz que me é cara?

Eu sonhei tanto contigo que meus braços habituados
Abraçando tua sombra
A se cruzar sobre meu peito não se dobrariam
Sobre o contorno do teu corpo, talvez.
E que, diante da aparência real do que me assombra
E me governa há dias e anos,
Eu me tornarei uma sombra sem dúvida.
Ó, balanças sentimentais.

Eu sonhei tanto contigo que não mais há tempo
Sem dúvida que eu desperte.
Eu durmo em pé, o corpo exposto
A todas as aparências da vida
E do amor e tu, a única
Que conta hoje para mim,
Eu poderia tocar menos tua fronte
E teus lábios do que os primeiros lábios
E a primeira fronte que vieram.

Eu sonhei tanto contigo, caminhei tanto, falei,
Deitei com teu fantasma
Que somente me resta, talvez,
E no entanto, ser fantasma
Dentre os fantasmas e mais sombra
Cem vezes que a sombra que passeia
E passeará alegremente
Sobre o quadrante solar de tua vida.

XXXXXXXXX

J'ai Tant Rêvé de Toi


J'ai tant rêvé de toi que tu perds ta réalité.
Est-il encore temps d'atteindre ce corps vivant
Et de baiser sur cette bouche la naissance
De la voix qui m'est chère?

J'ai tant rêvé de toi que mes bras habitués
En étreignant ton ombre
A se croiser sur ma poitrine ne se plieraient pas
Au contour de ton corps, peut-être.
Et que, devant l'apparence réelle de ce qui me hante
Et me gouverne depuis des jours et des années,
Je deviendrais une ombre sans doute.
O balances sentimentales.

J'ai tant rêvé de toi qu'il n'est plus temps
Sans doute que je m'éveille.
Je dors debout, le corps exposé
A toutes les apparences de la vie
Et de l'amour et toi, la seule
qui compte aujourd'hui pour moi,
Je pourrais moins toucher ton front
Et tes lèvres que les premières lèvres
et le premier front venu.

J'ai tant rêvé de toi, tant marché, parlé,
Couché avec ton fantôme
Qu'il ne me reste plus peut-être,
Et pourtant, qu'a être fantôme
Parmi les fantômes et plus ombre
Cent fois que l'ombre qui se promène
Et se promènera allègrement
Sur le cadran solaire de ta vie.

XXXXXXXXX

Amanhã

Com cem mil anos, ainda teria força
Te esperar, o amanhã abordar esperança.
O tempo, velho a sofrer por múltiplas forcas,
Vai gemer: nova manhã, nova noite mansa.

Depois de meses, nós vivemos o passado,
Nós vigiamos, guardamos a luz e o fogo,
Sussurramos, espreitamos o escutado
E o barulho apagado, perdido no jogo.

Fundo da noite, testemunhamos a hora
O esplendor do dia e de todos os presentes.
Se não dormimos é para espreitar a aurora
Que provará, enfim, vivemos no presente.

XXXXXXXXX

Demain

Âgé de cent-mille ans, j'aurais encore la force
De t'attendre, o demain pressenti par l'espoir.
Le temps, vieillard souffrant de multiples entorses,
Peut gémir: neuf est le matin, neuf est le soir.

Mais depuis trop de mois nous vivons à la veille,
Nous veillons, nous gardons la lumière et le feu,
Nous parlons à voix basse et nous tendons l'oreille
A maint bruit vite éteint et perdu comme au jeu.

Or, du fond de la nuit, nous témoignons encore
De la splendeur du jour et de tous ses présents.
Si nous ne dormons pas c'est pour guetter l'aurore
Qui prouvera qu'enfin nous vivons au présent.





Nenhum comentário:

Postar um comentário