domingo, 15 de fevereiro de 2015

RENÉ CREVEL: “NASCIDO REVOLTADO COMO OUTROS NASCEM COM OLHOS AZUIS”

RENÉ CREVEL, poeta e escritor parisiense (1900-1935).



Em 1921, ele conhece André Breton e integra o grupo dos Surrealistas. No final de 1922, ele leva o grupo a experimentar situações de “sono forçado”. Poeta e escritor menos conhecido, ele impressiona pela qualidade de sua eloquência. Excluído do movimento Surrealista em 1925, ele se une a Tristan Tzara e os “dada”. Ele participa como ator da peça de Tzara, “Coração a gás”. Em 1926, ele é tomado pela tuberculose. Em 1929, o exílio de Trotski o fará reencontrar com os Surrealistas. Fiel a André Breton, ele tentar a aproximação dos Surrealistas e dos Comunistas. Infrutífero. Com uma história tumultuosa de rupturas (com os Surrealistas, com o Partido Comunista etc) e sabedor de uma tuberculose renal (que ele pensava ter sido curada), ele se suicida por asfixia a gás em seu apartamento, depois de ter escrito em um papel: “Por favor, me cremem. Nojo”.  Klaus Mann, amigo próximo de René, escreveu em seu livro “Le Tournant”: 

“Ele se suicidou porque ele tinha medo da demência, ele se suicidou porque considerava o mundo demente”.

Segundo as palavras de André Breton

“com seu belo olhar de adolescente que é guardado em algumas fotografias, as seduções que ele exerce, os temores e as bravatas sempre prontas para serem acordadas em seu interior... através de tudo isso é a angústia que domina.  Ele é, aliás, psicologicamente muito complexo, frustrado em uma espécie de frenesi que o consome por seu amor ao século XVIII e particularmente por Diderot”.

“Nascido revoltado como outros nascem com os olhos azuis”, escreveu Philippe Soupault.

O poema abaixo encontra-se no livro “Mon Corps et moi”:

OLHAR
(tradução: Lucas Guimaraens)
Teu olhar cor de rio
É água que muda, em arranjo
Com o dia saciado no cenário.
Madrugada, Vestido de anjo
Um naco do manto celestial
Sob teus cílios, entre as margens
Se fez. Flui, flui viva água em paragens.
A noite parte, mas o amor permanece
E minha mão sente bater um coração.
A alvorada quis adornar nossos corpos com sua acalmação.
Corpo-de-Deus.
O desejo matinal retomou nossos corpos nus
Para esculpir uma carne que acreditávamos cansada.
Sobre os rios ao longe barcas já desancoradas.
Nossas peles depois do amor têm cheiro de pão quente.
Se a água dos rios está pelos nossos membros,
Teus olhos lavarão minha alma;
Mas teu olhar líquido ao meio-dia que eu temo
Se transformará em chumbo?
Eu tenho medo do dia, do dia pesado como um jumbo
Do dia que sacia teu olhar cor de rio
Ou numa noite pavimentada por gêmeos triunfos
Se a vitória grita a volúpia dos anjos,
Revele-se nela a Majestade de um Ganges.

REGARD

Ton regard couleur de fleuve
Est l'eau docile et qui change
Avec le jour qu'elle abreuve.
Petit matin, Robe d'ange
Un pan du manteau céleste
Sous tes cils, entre les rives
S'est pris. Coule, coule eau vive.
La nuit part, mais l'amour reste
Et ma main sent battre un cœur.
L'aube a voulu parer nos corps de sa candeur.
Fête-Dieu.
Le désir matinal a repris nos corps nus
Pour sculpter une chair que nous avions cru lasse.
Sur les fleuves au loin déjà les bateaux passent.
Nos peaux après l'amour ont l'odeur du pain chaud.
Si l'eau des fleuves est pour nos membres,
Tes yeux laveront mon âme ;
Mais ton regard liquide au midi que je crains
Deviendra-t-il de plomb ?
J'ai peur du jour, du jour trop long
Du jour qu'abreuve ton regard couleur de fleuve
Or dans un soir pavé pour de jumeaux triomphes
Si la victoire crie la volupté des anges,
Que se révèle en lui la Majesté d'un Gange.


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