terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

MEA CULPA, MEA CULPA OU A SANHA DE UMA PARCELA DAS VANGUARDAS CONCRETISTAS



Belíssimas traduções de Augusto de Campos aquelas de “Byron e Keats”, no livro ENTREVERSOS (ed. Unicamp), de 2009. Sem dúvida alguma.

Afonso Henriques [Guimaraens] Neto, exímio poeta, contista e tradutor, escreveu em uma postagem minha anterior, no facebook (dia 31/01/2015):

“Ainda bem que os duros tempos da luta literária das vanguardas dos anos de 1950 e 60 ficaram para trás, quando ouvia asneiras do tipo "Augusto dos Anjos é péssimo poeta", e, por extensão, todos os simbolistas. Foi boicote pra todo lado. Daí não ter havido discussão nem em torno das vanguardas do início do século 20, como o Surrealismo, no Brasil de então. Você bem disse: toda redução é perniciosa. Vamos arejar e enriquecer o ambiente para as próximas gerações.”

Uma certa turma literária, a ferro e fogo, quis apagar a importância artística e histórica dos pré-modernistas, dos simbolistas etc. Na introdução do livro de traduções supracitado, parece ter havido uma espécie de “mea culpa”, algo importante depois de tanta devastação. Aqui, transcrevo as palavras de Augusto de Campos:

“Uma das poucas vantagens da longevidade é a de poder reconfigurar conceitos e preconceitos, uma disposição que me fez reconciliar-me com poetas aparentemente tão distantes dos meus projetos juvenis de poesia como Rilke e Byron, por exemplo. Considero um privilégio ter sobrevivido para reavaliá-los e valorizá-los como merecem, e dedicar-me, apaixonadamente, a verter exemplos de suas obras mais inventivas para nossa língua sob a perspectiva da crítica criativa, da crítica-via-tradução.”

ANTES TARDE DO QUE NUNCA. Louvável, claro. Mas depois de tanta “febre juvenil” (the Age demanded?), valeria mais esforço, sobretudo no que se refere aos nossos brasileiros (ainda esquecidos, ainda desconhecidos). Augusto de Campos, no mesmo texto, escreve:

“Sentíamos que o momento impunha (...) um reequilíbrio ecológico para arejar o nosso ambiente poético,” (...). 

Até aqui ainda passa. Mas discordo quando ele assim se posiciona: 

“(...) pois sem essa radicalização necessária, não poderíamos clarear as coisas e dar o passo que demos para sacudir a nossa poesia da passividade e do convencionalismo recalcitrantes”.

Lembro de Goethe: “Se os olhos não fossem solares, eles não veriam o sol.” Poesia da passividade e do convencionalismo aos olhos de quem? Para quem?

As rupturas de pensamento/estética são necessárias, claro. No entanto, estas não prescindem asfixiar o passado. Drummond é um dos que corroboram com esta assertiva. Não somente pela homenagem direta, como mostrei em minha publicação anterior referente a Alphonsus de Guimaraens (o simbolista), mas também pelo "universo alphonsiano" que o poeta perpetuou no poema modernista. Drummond remete à história sem, por isso, deixar de ser original, inovador e caminhante da ruptura.

É importante também ressaltar que existiram/existem concretistas e concretistas, vanguardas e vanguardas. Como também publicou em meu facebook o Professor Leandro Garcia Rodrigues, entre outros atributos, grande pesquisador da Epistolografia de Alceu Amoroso Lima (06/02/2015):


“De fato, a sanha modernista de origem mais paulista foi cruel em relação aos simbolistas e/ou outros modernistas que não compactuavam muito com o ideário vanguardista que vinha de SP. Interessante notar que um outro modernismo foi vivido no RJ: mais apaziguador, equilibrado, conservador em alguns sentidos; haja vista algumas revistas cariocas, cito apenas a "Festa", que era chacoteada pelos paulistas de forma veemente. Por conta disso e pelo discurso centralizado nas diferentes radicalidades, até hoje as linguagens simbolista e parnasiana vivem numa espécie de limbo histórico”.

Pois bem, espero que agora erros históricos sejam verdadeiramente repensados (e valorizados). Sigamos.

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES.

Aqui, uma genialíssima (como não poderia deixar de ser) tradução do poema de Byron por Augusto de Campos:

                  18

   I loved her from my boyhood: she to me
    Was as a fairy city of the heart.
    Rising like water-columns from the sea,
    Of joy the sojourn, ando f wealth the mart
      And Otway, Radcliffe, Schiller, Shakspeare’s art,
      Had stamped her image in me, and e’en so,
      Although I found her thus, we did not part,
       Perchance e’en dearer in her day of woe,
Than when she was a boast, a Marvel, and a show.


                  18

   Desde cedo eu a pus em meu altar,
   Cidade etérea qe se vê surgir
   Como em colunas de água sobre o mar.
   Sítio do amor e sede do mercar,
   Que Otway, Radcliffe, Schiller, Shakespeare
   Celebrizaram. Mas ainda a dor
   De agora não nos poder dividir,
   Talvez mais bela no seu desfavor
Do que quando era só poder, glória e fulgor.


EM TEMPO: Afonso Henriques Neto lança, neste ano, 2 livros de traduções pela editora Ibis Libris de Thereza Rocque da Motta. Um de Keats e outro de Rimbaud. Mal posso esperar. E valerá, claro, mil postagens por aqui.  




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