domingo, 8 de fevereiro de 2015

DE DRUMMOND PARA ALPHONSUS



Remexendo nas gavetas da memória de nossos mineiros pioneiros, lembrei-me, claro, de Alphonsus de Guimaraens. E, com ele e sobre ele, Carlos Drummond de Andrade. Drummond é o exemplo perfeito de que a ruptura estética e de pensamento não precisam passar pela asfixia do passado, como preconizaram os concretistas paulistas, em certo momento.

Drummond dedicou alguns poemas em homenagem ao solitário de Mariana. Aqui, reproduzo 3 destes poemas, ora integrais, ora fragmentos. O primeiro refere-se à visita que o ainda jovem Mario de Andrade fez ao poeta simbolista, no ano de 1919.


A VISITA

1919. 10 de julho.
Palmas. A porta aberta não responde.
Ô de casa! Mais palmas. A menina
manda entrar. O corredor abre à esquerda,
na tristura de cinza do escritório
baixo.

Dentro, o homem sozinho,
50 anos por fazer, ou feitos secamente
no rosto grave: – O senhor deseja?
– Vim conhecer o Príncipe, vim saudar o Príncipe
dos Poetas das Alterosas Montanhas!

O homem sorri: – O senhor está equivocado
ou caçoa talvez.
Sou há 13 anos, há 13 mil anos eternamente
juiz municipal em míseros sertões.
Em todo caso, sente-se. Conversar é bom
em minha solidão
que escorre a contemplar o deserto das cidades mortas.

O alto visitante jovem inclina-se, compenetrado:
– O Príncipe não é príncipe, eu sei
para o distraído, fosfóreo descaso
dos donos da literatura e da vida.
Mas é mais que isso, para cada um de nós poucos
obcecados
pela vertigem do poema no cristal da linguagem.

(...)

7

Volta o homem ao escritório.
Devagar.
10 de julho. 1919.
Devagar, torna a vida ao tempo-sempre.
Os versos, à gaveta melancólica.
O tecido da aranha recompõe-se.
É tudo igual? É tudo sem remédio?
Em algum ponto, pousa a memória
que não se diluirá.

Não fica nas estantes, nos metais
nem fica nos papéis a se apagarem.
Não fica na folhinha de Mariana.
Fica no ar, ninguém a sente.
Dois anos depois, a alma do poeta
será uma cruz enterrada no céu.
Em novo julho, tempo da Visita.


EM MEMÓRIA DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS

I

Na violeta do entardecer,
flutua, evanescente, o poema
daquele poeta cujo ser
era só poesia - e suprema.

II

Um poeta, entre muitos, me fascina
por ser mineiro e do País do Sonho.
O luar pousa em seu verso alto e tristonho
e a alma de quem o lê já se ilumina.


LUAR PARA ALPHONSUS

Hoje peço uma lua diferente
para Ouro Preto
Conceição do Serro
Mariana.

Não venha a lua de Armstrong
pisada, apalpada
analisada em fragmentos pelos geólogos.

Há de ser a lua mágica e pensativa
a lua de Alphonsus
sobre as três cidades de sua vida.

Comemore-se o centenário do poeta
com uma lua de absoluta primeira classe
bem mineira no gelado vapor de julho
bem da Virgem do Carmo do Ribeirão
dos menestréis de serenata
bem simbolista bem medieval.

Haja um luar de prata escorrendo sobre montanhas
inundando as prefeituras
os bancos de investimento de Belo Horizonte
a própria polícia militar
de modo que ninguém se esqueça, ninguém possa alegar:

Eu não sabia
Que ele fazia
Cem anos.

Mas não é para soltar foguetes nem fazer
os clássicos discursos ao povo mineiro
dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta
numa vida banal sem esperança.

É para sentir o luar
extra que envolve
Ouro Preto, Mariana, Conceição
filtrado suavemente
da poesia de Alphonsus, no silêncio
de sua mesa de juiz municipal
meritíssimo poeta do luar.

Algum estudante, sim, espero vê-lo
debruçado sobre a Pastoral aos Crentes
do Amor e da Morte, penetrando
o cerne dociamargo
de um verso alphonsino cem por cento.
Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?
Onde o poeta assiste, não há cocks
autógrafos, badalos, gravações.
está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même
enfin l’éternité le change...)
e descobri-lo é quase um nascimento
do verbo:
cada palavra antiga surge nova
intemporal, sem desgaste vanguardista, lua
nova, na página lunar.

E essa lua eu peço: aquela mesma
barquinha santa, gôndola
rosal cheio de harpas
urna de padre-nossos
pão de trigo da sagrada ceia
lua dupla de Ismália enlouquecida
lua de Alphonsus que ele soube ver
como ninguém mais veria
de seus mineiros altos miradouros.

O poeta faz cem anos no luar.


3 comentários:

  1. "e descobri-lo é quase um nascimento
    do verbo:
    cada palavra antiga surge nova"

    Que linda imagem! Olha a divisão dos versos: O "nascimento" domina o primeiro e nele o verso termina, pois nascer é alegria suficiente. Mas segue-lhe o "verbo", e o fato de o verbo, ainda que minúsculo, ter um verso inteiro para si neste poema imenso, é de uma transcendência única, seja o verbo como palavra ou como evocação mística do princípio, onde era o verbo e o verbo nasceu, uma atmosfera tão familiar ao Alphonsus. Mas "cada palavra antiga surge nova." A descoberta do verbo, o seu nascimento é o tempo, renovação contínua.

    "É para sentir o luar."

    Obrigado, Lucas
    Greg Ory

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    1. Meu caro Greg Ory, análise excelente dos versos escandidos de Drummond, do peso das palavras, do resultado do verso absolutamente livre. E mais: sua interpretação corrobora com o que tenho dito: a ruptura de pensamento/estética não prescinde da asfixia do passado. Não somente pela homenagem direta, mas também pelo "universo alphonsiano" que o poeta perpetuou no poema modernista, Drummond remete à história sem, por isso, deixar de ser original, inovador e caminhante da ruptura. Forte abraço.

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  2. Meritíssimo poeta do luar! Lindos, tocantes delicados, poderosos versos de um poeta a outro. Só eles mesmos, para usarem letrinhas juntas e, transformá-las em raios de luar. Taí, só sei sentir, não sei nem expressar o sentimento grande que me dão as palavras lindas, os versos danados do Carlos para Alphonsus!

    Sonia Frei

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