quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO PARA ALPHONSUS DE GUIMARAENS [& DESDOBRAMENTOS]

 
À esquerda, Alphonsus de Guimaraens e, à direita, seu filho, o também poeta Alphonsus de Guimaraens Filho.
  
Alphonsus de Guimaraens Filho não conheceu seu pai. E, ainda assim, como o conheceu. Modernista Poeta, dono de uma linguagem única na poética brasileira, Alphonsus Filho era o décimo quarto filho do simbolista mineiro, Alphonsus de Guimaraens.

Estrela de luz própria, assim escreveu Cecília Meireles ao amigo-poeta:

“Meu caro amigo poeta
Seu livro, de tão grande pureza poética,
tem sido o meu consolo, nesses dias torvos
que estamos atravessando. Leio-o e é como
se estivesse viajando num raio de lua.”

AQUI, alguns dos poemas – fragmentos ou integrais – do diálogo do filho com o pai ausente/presente e, também, outros poemas-memento para alguns de seus ilustres amigos tantos.

Antes e como disse o poeta, contista e tradutor Afonso Henriques Neto em publicação em meu facebook (dia 01/02/2015):

“A relação de meu pai com meu avô é de uma beleza extrema. Meu pai sempre me falava de quão duro era não ter conhecido o próprio pai (afinal tinha três anos quando ele se foi). Os poemas escolhidos estão perfeitos. Alphonsus Filho é um dos maiores poetas da modernidade. E deixou também um livro magnífico, "Alphonsus de Guimaraens no seu ambiente", misto de biografia e diálogo de coração aberto com o pai. Caso único na literatura brasileira, de pai e filho grandes poetas”.

E, aqui, complemento seu pensamento: Caso único na literatura brasileira de pai, filho e neto (o próprio Afonso Henriques Neto) grandes poetas. Sem esquecer, claro, de Bernardo Guimarães e as novas gerações.


Aos poemas:

Retrato (1959-1963)

(A meu pai)

Por mais que fosses triste, sempre eras
alguém voltado para iluminantes
manhãs, e as frutas, rosas deslumbrantes,
e as frescas, recendentes primaveras
que o teu olhar nas coisas distinguia.
Por mais triste que fosses, a esperança
de amar, ou contemplar numa criança
a ingênua luz do mais ingênuo dia,
sempre seria teu refúgio... E agora
que emerges do papel escurecido,
as mãos sobre o espaldar de uma cadeira,
no rosto o brilho de uma luz amiga
e o olhar no longe como que perdido,
sinto que em mim renasces, que a poeira
que és, de novo ganha a forma antiga...
E que é tua também a minha hora.

XXXXXXXXXX

Cruz e Sousa e Alphonsus (1975-1990)

Numa rua central, vão Cruz e Sousa
e Alphonsus. Para conhecer o Cisne Negro
(1895, Rio de Janeiro),
Alphonsus veio da montanha.
Diria mais tarde, no seu jornal Conceição
do Serro, que “teve ocasião de passar
horas magníficas
com este maravilhoso artista”.

Eu os relembro, depois do encontro: Alphonsus esquecido
“em sua heroica e tocante solidão” em Mariana
“onde é mais triste ainda a triste vida humana”,
Cruz e Sousa, o que
“ficou gemendo, mas ficou sonhando!”,
nos seus embates contra a vida áspera,
não raro cruel. Ambos, agora, iluminados
nas paragens da morte.

Sim, eu os vejo agora e para sempre juntos,
irmanados na estranha morada da poesia,
libertos dos sofrimentos, puros
e completos na amplitude
que a morte destina aos que deram à vida,
na grave fidelidade à própria alma,
uma luz para sempre inalterável,
chama que mão nenhuma apagará.

XXXXXXXXXX

Elegia Para Um Morto (1963-1968)

Até quando os astros me dirão que estás sozinho?
Só, nas grandes torres de vigia?
Que te deixaste prender no aranhol da galáxia?
Os astronautas chegam e eu não pergunto por ti.
Os astronautas viram demais para terem visto.
Faz frio, um frio que não vem de mim nem de nenhuma parte desta terra vazia de consolo.
Estás só. Como a noite.

Só, no despenhadeiro das estrelas.

XXXXXXXXXX

Alphonsus de Guimaraens(1953)

O coração se eleva para a estrela
que solitária em céu silente espia.
– Ah pudesse eu, Senhor, na alma contê-la,
e a noite santa, e a doce paz do dia!

Cada flor (que não vê) para colhê-la
segue, no rastro de uma luz que é fria
e que nas mãos erguidas a centelha
da morte deita, e um sopro de agonia...

Vago sol indeciso a noite escura
do coração penetra, e resplandece
– caravela perdida – a lua errante...

– Mas tu, Senhora, a torre eterna e pura,
é que me amparas – bálsamo da prece,
consolo da minh’alma agonizante...

XXXXXXXXXX

Balada dos Moços dos Tempos d’Antanho (1975-1990)

Na Praça da Liberdade,
na liberdade das ruas
da madrugada, se iam
cinco amigos de verdade
confidenciando as suas
mágoas que desconheciam,
no aquário do mundo estranho.

Onde estão eles, moços d’antanho?

Otto Lara Resende, vindo
de São João del-Rei, dizia
que só mesmo a gente caindo
dentro da Igreja, pelo teto
de uma igreja, desabando
da nossa perplexidade na
paz de um porto supremo e quieto.

Otto, te banhas na Luz? Me banho?

Onde estão os moços d’antanho?

E Paulo Mendes Campos, referto
de poesia, Paulo grave, profundo
no jeito de quem não-está,
Paulo absorto em sombras, ferido
de um sentimento (seu) do mundo,
pairando acima do deserto
em que um poeta vai perdido
atrás de imaterial rebanho...

Onde estão os moços d’antanho?

Fernando Sabino que agitado
como a própria mocidade, trazia
méritos de atleta, e se encharcava
também do sumo da poesia,
Fernando todo alacridade,
Fernando todo claridade,
a mocidade transfigurava
no seu impulso de atleta-poeta,
de atleta-poeta convulsionado
empós de um reino fugaz, perplexo,
mais belo por mais desconexo,
no aquário do mundo estranho.

Onde estão os moços d’antanho?

Hélio Pellegrino, flamante,
movido ao impulso que arremetia
às águas fundas, ao diamante
dos diamantes (a poesia?),
Hélio sonhando, Hélio bradando
por uma vida além da vida
e suspirando e se agitando
na sua inquietação de moço
para quem tudo somente era
grande luz de invisível poço,
poço de Deus? da alma? clara,
luminosíssima cisterna
mal suspeitada e aberta para
a única manhã-manhã, e eterna,

Onde estão os moços d’antanho?

E o visionário conduzindo
na própria treva a perdição
do que simula ser tão lindo
e é mais que cinza e frustração,
ele, sonhando, ele, com amigos
indo nas ruas da cidade
como quem sabe que (já antigos)
os dias guardam uma saudade
que com o tempo será terrível
brasa tenaz, inconsumível,
na carne (na alma) maldito lanho...

Ei-lo a indagar, a sós, olhando
no que, já ido, ainda está vibrando:
Onde estão eles, moços d’antanho?
Onde estão moços do estranho antanho?

XXXXXXXXXX

Soneto dos Quarenta Anos (1959-1963)

Não me ficou da vida mágoa alguma
de que possa lembrar aos quarenta anos
senão esses cansados desenganos
que o mar que trouxe leva como espuma.

Foram-se os anos, mas que são os anos?
Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.
As horas que eu vivi, de uma em uma,
deixaram sonhos e deixaram danos.

Muita morte passou n’alma ferida:
meu pai, meus irmãos, mortos amados.
Mas pela minha vida passou a vida,

passou amor também, passou carinho.
E pelos dias claros ou magoados
não fui feliz e nem sofri sozinho.

XXXXXXXXXX

Manuel Bandeira Visita a Viúva de um Poeta (1979-1981)

Nesta mesma sala
– lá se vão vinte anos –
vi-te visitá-la.

Quem agora fala?
Levaram-te insanos
(e a ela) esses ventos

que desfazem dias
como o atroz novelo.
Como não te rias
sem teus desalentos.

E ela, tão serena,
tão alvo cabelo,
nesta mesma sala.

Nesta mesma vida
que segue sem pena,
mais do que perdida.

(Tudo é luz cansada.)

Deus do céu, a vida
como dissipá-la,
mesmo dissipada?

XXXXXXXXXX

A Meu Pai em Ouro Preto (1979-1981)

Num sobrado da rua São José
nasceu o poeta, e ali se fez poeta.
D. Chiquinha, a mãe, chorava inquieta
a ouvir-lhe os versos. Já Albino até

se emocionava ao ver que o sonho é,
tem de ser, ao seu filho que projeta
tão grande solidão na luz secreta
da poesia – dor, paixão e fé.

Foram-se os dias, pais envelheceram,
o poeta partiu, tornou, cantando
esse pesar que sempre o acompanhou.

Agora, quando todos se esqueceram
na estranha paz, que faço eu sonhando
no sobrado vazio em que me vou?

XXXXXXXXXX

Segundo Soneto de Mariana (1979-1981)

Na casa em que nasci morreu meu pai.
Rua Direita: rua em que brinquei
na infância, e agora tudo nela vai
perdido, é sonho... E nela, no cansaço

do que se foi de mim, eu reterei
acaso mais que seu silêncio, o espaço
exíguo e pobre em que meu ser se esvai?
A sombra em que me perco ou me adelgaço?

Ouço vozes que chamam nos sobrados,
nas igrejas, nas ruas silenciosas,
e pelos meus caminhos dissipados

a vida em cada pedra é um lamento,
em cada sino um grito, e suspirosas
bocas falam de um mundo: apenas vento.

XXXXXXXXXX

Inscrição

– Sou o décimo quarto filho
de um poeta.
Vim para este exílio
numa tarde quieta
de uma cidade morta.
– E agora, que te acalma?
– Ver fechar-se a última porta
sobre a última alma.


Nenhum comentário:

Postar um comentário