sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

LITERATURA - LAMPEJOS TRANSCULTURAIS DE RUPTURA E TRADIÇÃO: OS BEATS, CLAUDIO WILLER, MICHEL FOUCAULT E JACQUES POULAIN




Como é difícil – se fosse uma questão de escolha e disto dependesse o posicionamento criativo de qualidade – afastar-se dos grandes. E quem, em sã consciência, haveria de querer algo do tipo? Relendo a obra de Claudio Willer “Os Rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico” e com um bloco de livros ao lado, deparo-me com esta passagem:

“Em Vanity of Duluoz, por exemplo, há uma afirmação de princípios em favor do multiculturalismo, criticando todo etnocentrismo – atitude característica não só de Kerouac, mas de toda a beat. Ao chegar à Groelândia em sua primeira viagem de navio, vê esquimós:

‘[...] pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe. (Kerouac, 1994, p. 134)’”

Claudio Willer
Vejo, aqui e na obra beat em geral (mesmo no contexto das heresias, religiosidades ou ausência delas), talvez, uma dos mais bem finalizados exemplos não somente do multiculturalismo (como preconiza Willer), mas da transculturalidade, termo criado e desenvolvido pelo filósofo francês Jacques Poulain, catedrático da UNESCO em Filosofia das Instituições e Multiculturalismo. Em linhas gerais, nesta citação acima, há indícios de um diálogo transcultural onde origens diferentes se encontram em pé de igualdade e, mais, se percebem e percebem não somente com tolerância – mas com a vontade de ser contaminado pelo outro – os buracos existentes na outra cultura, no diferente. Contaminar-se pelo outro para completar-se.

Jacques Poulain

E, na obra de Willer, há uma demonstração nocauteante de que as rupturas não prescindem da recusa da tradição (crítica inteligente a ela, claro, mas não recusa). Muito pelo contrário: a verdadeira ruptura não comporta em seus atores os chamados “apagadores do passado”. Toda criação é uma recriação. Ou não?

Se é verdade que a arte e os artistas compreendem – de maneira fragmentária e parcial –, atualmente, que suas intervenções no espaço social devem despertar a consciência política e social dos indivíduos, a pesquisa de Willer nos faz perceber que os beats não se atêm somente a esta dimensão. Não é anulada a hipótese da função e potencialidade estética da arte como fomentadora e indagadora de contextos sociais e políticos. Se o artista é visto como um “resistente” ou “contra-força”, isto não se insere em um sentido político stricto sensu e, sim, pelo o que há de ética em sua estética da comunicação, ou seja, pelo o que há de ética em sua filosofia da criação e de recepção. O escriba poético é, pois, um “resistente” na medida em que seu objeto de criação é o enigmático, o inexplicável. Ele resiste na medida em que – refutando o que já está estabelecido no grande fluxo do todo comunicacional – se obstina a realizar prospecções e levar  à luz sentidos onde os outros não vêm (e não querem ver). O que nos interessa, aqui, é o papel do artista e da arte e, mais especificamente, da escrita poética (lato sensu), no desenvolvimento da identidade de um povo e como espaço aberto para o diálogo transcultural.

Com efeito e partindo da metodologia e abordagem presentes na obra de Michel Foucault, temos como premissas de pesquisa as ideias de jogos de verdades (no plural) e sua metodologia arqueológica (referente às práticas discursivas) que o leva (e nos leva), em um segundo momento, à análise da genealogia do poder (referente às práticas discursivas e extra-discursivas) para, enfim, observar a possibilidade de libertação do indivíduo daquilo que ele nomeou “biopolitização da vida”. Segundo este filósofo, nossa atenção deveria residir na constatação de que as relações de poder foram progressivamente “governamentalizadas”, ou seja, elaboradas, racionalizadas e centralizadas sob a forma ou sob a caução das instituições. Esta é a razão pela qual o “último” Foucault alterou a problemática de suas pesquisas da política e se aprofundou no domínio da ética. Para ele, o principal objetivo da resistência é o de ser o “menos governado” possível. Desta forma, seus estudos sobre a “biopolítica” e a “governamentalidade” o levaram a retomar e  desenvolver o conceito de parrhêsia, o dizer-verdade do intelectual e do artista a fim de diagnosticar o presente e atenuar a hegemonia de qualquer pensamento. Este é, a nosso ver, o ponto de partida beat (e não somente deles) para compreender a si e, em seguida, para estar apto a ser impregnado pelo outro em um diálogo transcultural. Em sua obra, Willer nos ajuda a tatear, ainda mais, os vestígios da escrita poética enquanto caminho arqueológico e enquanto campo de vivências.

Michel Foucault

Poiesis e aisthesis: os dois lados beat. Não há poesia experimental sem uma vida experimental, diria Roberto Piva. Em “Os Rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico”, Claudio Willer nos dá o caminho para esta compreensão. E nos entrega o lampejo iluminado (sim, redundância necessária) de que – independente de heresias e não-heresias, tema central de sua obra – os beats são o exemplo claro da busca pelo ser o “menos governado” possível através da palavra e ação livre, errante e escandalosa: parrhêsia.

Daí eu realmente não compreender a sanha de alguns expoentes da literatura brasileira e mundial em negligenciar determinados escritores e movimentos em detrimento de outros. Isto quando não demonizam (no sentido verdadeiramente pejorativo) algumas correntes literárias pretéritas. Como foi o caso de parcela dos concretistas brasileiros em relação aos simbolistas e até mesmo aos surrealistas (i.e. Murilo Mendes, Jorge de Lima etc). E fim de papo. Ou continuidade de um.



domingo, 15 de fevereiro de 2015

RENÉ CREVEL: “NASCIDO REVOLTADO COMO OUTROS NASCEM COM OLHOS AZUIS”

RENÉ CREVEL, poeta e escritor parisiense (1900-1935).



Em 1921, ele conhece André Breton e integra o grupo dos Surrealistas. No final de 1922, ele leva o grupo a experimentar situações de “sono forçado”. Poeta e escritor menos conhecido, ele impressiona pela qualidade de sua eloquência. Excluído do movimento Surrealista em 1925, ele se une a Tristan Tzara e os “dada”. Ele participa como ator da peça de Tzara, “Coração a gás”. Em 1926, ele é tomado pela tuberculose. Em 1929, o exílio de Trotski o fará reencontrar com os Surrealistas. Fiel a André Breton, ele tentar a aproximação dos Surrealistas e dos Comunistas. Infrutífero. Com uma história tumultuosa de rupturas (com os Surrealistas, com o Partido Comunista etc) e sabedor de uma tuberculose renal (que ele pensava ter sido curada), ele se suicida por asfixia a gás em seu apartamento, depois de ter escrito em um papel: “Por favor, me cremem. Nojo”.  Klaus Mann, amigo próximo de René, escreveu em seu livro “Le Tournant”: 

“Ele se suicidou porque ele tinha medo da demência, ele se suicidou porque considerava o mundo demente”.

Segundo as palavras de André Breton

“com seu belo olhar de adolescente que é guardado em algumas fotografias, as seduções que ele exerce, os temores e as bravatas sempre prontas para serem acordadas em seu interior... através de tudo isso é a angústia que domina.  Ele é, aliás, psicologicamente muito complexo, frustrado em uma espécie de frenesi que o consome por seu amor ao século XVIII e particularmente por Diderot”.

“Nascido revoltado como outros nascem com os olhos azuis”, escreveu Philippe Soupault.

O poema abaixo encontra-se no livro “Mon Corps et moi”:

OLHAR
(tradução: Lucas Guimaraens)
Teu olhar cor de rio
É água que muda, em arranjo
Com o dia saciado no cenário.
Madrugada, Vestido de anjo
Um naco do manto celestial
Sob teus cílios, entre as margens
Se fez. Flui, flui viva água em paragens.
A noite parte, mas o amor permanece
E minha mão sente bater um coração.
A alvorada quis adornar nossos corpos com sua acalmação.
Corpo-de-Deus.
O desejo matinal retomou nossos corpos nus
Para esculpir uma carne que acreditávamos cansada.
Sobre os rios ao longe barcas já desancoradas.
Nossas peles depois do amor têm cheiro de pão quente.
Se a água dos rios está pelos nossos membros,
Teus olhos lavarão minha alma;
Mas teu olhar líquido ao meio-dia que eu temo
Se transformará em chumbo?
Eu tenho medo do dia, do dia pesado como um jumbo
Do dia que sacia teu olhar cor de rio
Ou numa noite pavimentada por gêmeos triunfos
Se a vitória grita a volúpia dos anjos,
Revele-se nela a Majestade de um Ganges.

REGARD

Ton regard couleur de fleuve
Est l'eau docile et qui change
Avec le jour qu'elle abreuve.
Petit matin, Robe d'ange
Un pan du manteau céleste
Sous tes cils, entre les rives
S'est pris. Coule, coule eau vive.
La nuit part, mais l'amour reste
Et ma main sent battre un cœur.
L'aube a voulu parer nos corps de sa candeur.
Fête-Dieu.
Le désir matinal a repris nos corps nus
Pour sculpter une chair que nous avions cru lasse.
Sur les fleuves au loin déjà les bateaux passent.
Nos peaux après l'amour ont l'odeur du pain chaud.
Si l'eau des fleuves est pour nos membres,
Tes yeux laveront mon âme ;
Mais ton regard liquide au midi que je crains
Deviendra-t-il de plomb ?
J'ai peur du jour, du jour trop long
Du jour qu'abreuve ton regard couleur de fleuve
Or dans un soir pavé pour de jumeaux triomphes
Si la victoire crie la volupté des anges,
Que se révèle en lui la Majesté d'un Gange.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO PARA ALPHONSUS DE GUIMARAENS [& DESDOBRAMENTOS]

 
À esquerda, Alphonsus de Guimaraens e, à direita, seu filho, o também poeta Alphonsus de Guimaraens Filho.
  
Alphonsus de Guimaraens Filho não conheceu seu pai. E, ainda assim, como o conheceu. Modernista Poeta, dono de uma linguagem única na poética brasileira, Alphonsus Filho era o décimo quarto filho do simbolista mineiro, Alphonsus de Guimaraens.

Estrela de luz própria, assim escreveu Cecília Meireles ao amigo-poeta:

“Meu caro amigo poeta
Seu livro, de tão grande pureza poética,
tem sido o meu consolo, nesses dias torvos
que estamos atravessando. Leio-o e é como
se estivesse viajando num raio de lua.”

AQUI, alguns dos poemas – fragmentos ou integrais – do diálogo do filho com o pai ausente/presente e, também, outros poemas-memento para alguns de seus ilustres amigos tantos.

Antes e como disse o poeta, contista e tradutor Afonso Henriques Neto em publicação em meu facebook (dia 01/02/2015):

“A relação de meu pai com meu avô é de uma beleza extrema. Meu pai sempre me falava de quão duro era não ter conhecido o próprio pai (afinal tinha três anos quando ele se foi). Os poemas escolhidos estão perfeitos. Alphonsus Filho é um dos maiores poetas da modernidade. E deixou também um livro magnífico, "Alphonsus de Guimaraens no seu ambiente", misto de biografia e diálogo de coração aberto com o pai. Caso único na literatura brasileira, de pai e filho grandes poetas”.

E, aqui, complemento seu pensamento: Caso único na literatura brasileira de pai, filho e neto (o próprio Afonso Henriques Neto) grandes poetas. Sem esquecer, claro, de Bernardo Guimarães e as novas gerações.


Aos poemas:

Retrato (1959-1963)

(A meu pai)

Por mais que fosses triste, sempre eras
alguém voltado para iluminantes
manhãs, e as frutas, rosas deslumbrantes,
e as frescas, recendentes primaveras
que o teu olhar nas coisas distinguia.
Por mais triste que fosses, a esperança
de amar, ou contemplar numa criança
a ingênua luz do mais ingênuo dia,
sempre seria teu refúgio... E agora
que emerges do papel escurecido,
as mãos sobre o espaldar de uma cadeira,
no rosto o brilho de uma luz amiga
e o olhar no longe como que perdido,
sinto que em mim renasces, que a poeira
que és, de novo ganha a forma antiga...
E que é tua também a minha hora.

XXXXXXXXXX

Cruz e Sousa e Alphonsus (1975-1990)

Numa rua central, vão Cruz e Sousa
e Alphonsus. Para conhecer o Cisne Negro
(1895, Rio de Janeiro),
Alphonsus veio da montanha.
Diria mais tarde, no seu jornal Conceição
do Serro, que “teve ocasião de passar
horas magníficas
com este maravilhoso artista”.

Eu os relembro, depois do encontro: Alphonsus esquecido
“em sua heroica e tocante solidão” em Mariana
“onde é mais triste ainda a triste vida humana”,
Cruz e Sousa, o que
“ficou gemendo, mas ficou sonhando!”,
nos seus embates contra a vida áspera,
não raro cruel. Ambos, agora, iluminados
nas paragens da morte.

Sim, eu os vejo agora e para sempre juntos,
irmanados na estranha morada da poesia,
libertos dos sofrimentos, puros
e completos na amplitude
que a morte destina aos que deram à vida,
na grave fidelidade à própria alma,
uma luz para sempre inalterável,
chama que mão nenhuma apagará.

XXXXXXXXXX

Elegia Para Um Morto (1963-1968)

Até quando os astros me dirão que estás sozinho?
Só, nas grandes torres de vigia?
Que te deixaste prender no aranhol da galáxia?
Os astronautas chegam e eu não pergunto por ti.
Os astronautas viram demais para terem visto.
Faz frio, um frio que não vem de mim nem de nenhuma parte desta terra vazia de consolo.
Estás só. Como a noite.

Só, no despenhadeiro das estrelas.

XXXXXXXXXX

Alphonsus de Guimaraens(1953)

O coração se eleva para a estrela
que solitária em céu silente espia.
– Ah pudesse eu, Senhor, na alma contê-la,
e a noite santa, e a doce paz do dia!

Cada flor (que não vê) para colhê-la
segue, no rastro de uma luz que é fria
e que nas mãos erguidas a centelha
da morte deita, e um sopro de agonia...

Vago sol indeciso a noite escura
do coração penetra, e resplandece
– caravela perdida – a lua errante...

– Mas tu, Senhora, a torre eterna e pura,
é que me amparas – bálsamo da prece,
consolo da minh’alma agonizante...

XXXXXXXXXX

Balada dos Moços dos Tempos d’Antanho (1975-1990)

Na Praça da Liberdade,
na liberdade das ruas
da madrugada, se iam
cinco amigos de verdade
confidenciando as suas
mágoas que desconheciam,
no aquário do mundo estranho.

Onde estão eles, moços d’antanho?

Otto Lara Resende, vindo
de São João del-Rei, dizia
que só mesmo a gente caindo
dentro da Igreja, pelo teto
de uma igreja, desabando
da nossa perplexidade na
paz de um porto supremo e quieto.

Otto, te banhas na Luz? Me banho?

Onde estão os moços d’antanho?

E Paulo Mendes Campos, referto
de poesia, Paulo grave, profundo
no jeito de quem não-está,
Paulo absorto em sombras, ferido
de um sentimento (seu) do mundo,
pairando acima do deserto
em que um poeta vai perdido
atrás de imaterial rebanho...

Onde estão os moços d’antanho?

Fernando Sabino que agitado
como a própria mocidade, trazia
méritos de atleta, e se encharcava
também do sumo da poesia,
Fernando todo alacridade,
Fernando todo claridade,
a mocidade transfigurava
no seu impulso de atleta-poeta,
de atleta-poeta convulsionado
empós de um reino fugaz, perplexo,
mais belo por mais desconexo,
no aquário do mundo estranho.

Onde estão os moços d’antanho?

Hélio Pellegrino, flamante,
movido ao impulso que arremetia
às águas fundas, ao diamante
dos diamantes (a poesia?),
Hélio sonhando, Hélio bradando
por uma vida além da vida
e suspirando e se agitando
na sua inquietação de moço
para quem tudo somente era
grande luz de invisível poço,
poço de Deus? da alma? clara,
luminosíssima cisterna
mal suspeitada e aberta para
a única manhã-manhã, e eterna,

Onde estão os moços d’antanho?

E o visionário conduzindo
na própria treva a perdição
do que simula ser tão lindo
e é mais que cinza e frustração,
ele, sonhando, ele, com amigos
indo nas ruas da cidade
como quem sabe que (já antigos)
os dias guardam uma saudade
que com o tempo será terrível
brasa tenaz, inconsumível,
na carne (na alma) maldito lanho...

Ei-lo a indagar, a sós, olhando
no que, já ido, ainda está vibrando:
Onde estão eles, moços d’antanho?
Onde estão moços do estranho antanho?

XXXXXXXXXX

Soneto dos Quarenta Anos (1959-1963)

Não me ficou da vida mágoa alguma
de que possa lembrar aos quarenta anos
senão esses cansados desenganos
que o mar que trouxe leva como espuma.

Foram-se os anos, mas que são os anos?
Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.
As horas que eu vivi, de uma em uma,
deixaram sonhos e deixaram danos.

Muita morte passou n’alma ferida:
meu pai, meus irmãos, mortos amados.
Mas pela minha vida passou a vida,

passou amor também, passou carinho.
E pelos dias claros ou magoados
não fui feliz e nem sofri sozinho.

XXXXXXXXXX

Manuel Bandeira Visita a Viúva de um Poeta (1979-1981)

Nesta mesma sala
– lá se vão vinte anos –
vi-te visitá-la.

Quem agora fala?
Levaram-te insanos
(e a ela) esses ventos

que desfazem dias
como o atroz novelo.
Como não te rias
sem teus desalentos.

E ela, tão serena,
tão alvo cabelo,
nesta mesma sala.

Nesta mesma vida
que segue sem pena,
mais do que perdida.

(Tudo é luz cansada.)

Deus do céu, a vida
como dissipá-la,
mesmo dissipada?

XXXXXXXXXX

A Meu Pai em Ouro Preto (1979-1981)

Num sobrado da rua São José
nasceu o poeta, e ali se fez poeta.
D. Chiquinha, a mãe, chorava inquieta
a ouvir-lhe os versos. Já Albino até

se emocionava ao ver que o sonho é,
tem de ser, ao seu filho que projeta
tão grande solidão na luz secreta
da poesia – dor, paixão e fé.

Foram-se os dias, pais envelheceram,
o poeta partiu, tornou, cantando
esse pesar que sempre o acompanhou.

Agora, quando todos se esqueceram
na estranha paz, que faço eu sonhando
no sobrado vazio em que me vou?

XXXXXXXXXX

Segundo Soneto de Mariana (1979-1981)

Na casa em que nasci morreu meu pai.
Rua Direita: rua em que brinquei
na infância, e agora tudo nela vai
perdido, é sonho... E nela, no cansaço

do que se foi de mim, eu reterei
acaso mais que seu silêncio, o espaço
exíguo e pobre em que meu ser se esvai?
A sombra em que me perco ou me adelgaço?

Ouço vozes que chamam nos sobrados,
nas igrejas, nas ruas silenciosas,
e pelos meus caminhos dissipados

a vida em cada pedra é um lamento,
em cada sino um grito, e suspirosas
bocas falam de um mundo: apenas vento.

XXXXXXXXXX

Inscrição

– Sou o décimo quarto filho
de um poeta.
Vim para este exílio
numa tarde quieta
de uma cidade morta.
– E agora, que te acalma?
– Ver fechar-se a última porta
sobre a última alma.