sábado, 12 de julho de 2014

(A MENTIRA) - POEMA DE GÉRARD CARTIER - tradução Lucas Guimaraens

O poeta francês Gérard Cartier
Antes do poema: amigo, tradutor e poeta, Cartier nasceu em 1949. Laureado com importantes prêmios franceses como o Prêmio Max-Jacob e o Prêmio Tristan Tzara. Sua escrita possui, como pano de fundo, a História. Mas não nos equivoquemos. Seu olhar é pessoal, real e fictício. Ele tira da topoi ou de generalizações o substrato para o individual, a vivência cotidiana. É como se ele tivesse sempre estado em todos os momentos, em todos os tempos. Gérard Cartier, ainda, nestes fronts em que acirram, notadamente na Europa, as discussões que preconizam a inocuidade/morte do surrealismo (que besteira sem fim!) e a necessidade de aproximar a poesia do leitor através de uma leitura reta (o que seria isto?), Cartier, a meu ver, consegue sua boa e excelente mesura. Alguns de seus livros possuem a forma informe (poema em prosa) de uma autobiografia fantasmática que não coincide pois com a própria existência, mas é como a imagem mítica ou a projeção sonhada.

Gérard Cartier traduziu, entre outros, o poeta irlandês Seamus Heaney, Prêmio Nobel da literatura em 1995. Desde 2010, ele é o coordenador da Revista de literatura Secousses, na França, onde ele publica críticas de poesia. De 1993 a 2007, com Francis Combes, ele foi o iniciador, responsável e co-curador da incrível intervenção urbana de poesia nos metrôs de Paris, com a colocação de cartazes com poemas de todo o mundo em todos os vagões.

Gérard Cartier e Lucas Guimaraens e, ao centro,
o poeta e dramaturgo turco, Hasan Erkek,
em navio no Estreito de Bósforo, durante evento literário.


 Vamos ao poema ambientado em Londres:


(A MENTIRA) – Gérard Cartier
Tradução: Lucas Guimaraens


O céu está pintado sobre os imóveis de Elvaston Gardens. As estações deslizam lentamente pelos flancos destas urnas onde mesmo a vista se colore com diversidade. Isto acontecera em Julho e já é Dezembro. O sol estacionou sobre a torre do Imperial College e fulmina como se estivesse na ponta de um para-raios. O inverno é sugerido como que por mãos desajeitadas: o céu está besuntado de cinzas, a vermelhidão transborda o contorno do Ó, a textura da matéria aparece sob as cores.

Em seguida, a noite carrega a torre e o céu. Encolhido na parte de trás, em frente à janela onde sombreia o pátio do Paraíso, eu organizo os detritos recolhidos durante minhas peregrinações. Encostado na parede de meu escritório, em transe, apenas uma mão para fora do cobertor, eu sou composto por estes diplomas incoerentes da vida: não esta bastarda do acaso, mas a menina de um sonho há muito meditado.

Eles dizem: Desejem a razão, amem a verdade. É necessário não sonhar, que a página seja nua e sem trapaça. Seus modelos são o tratado de matemática. Seus traços são limpos. Suas vozes são empostadas e não tremem. É Montaigne em sua torre, no meio de pilhagens da Liga, nada deixam adivinhar dele. É Descartes na Holanda, debruçado sobre um tratado sobre o olho claro de um espelho.

Há escândalo se travestindo ao se render de enganos para emocionar com falsos contos. Mas o que fazer do pobre comércio que nos é infligido, de nossos sentimentos rudimentares e da torre do Imperial College erguida na noite? E se por surpresa a tempestade nos envolve dos sentimentos: a ebriedade, as lágrimas, o fígado que se contrai, este arrepio que não é possível dominar, como esta verdade não ofusca a razão?

Tranquem suas paixões sob um espartilho rígido. Amem a mentira. As reclamações e as alegrias, que elas sejam apenas uma astúcia. Aquele que diz: A ti este vinho trôpego... que ele seja apenas um ser maquiado titubeando sobre o palco. Que geme: Amar uma guerra... que isto esteja escondido sob um vestido ornado. Coloram seus sonhos de ilusão da realidade. Então, talvez, em suas pretensões, vocês serão reais.

É o fim de Dezembro. Londres enegrece à noite e, no final dos becos de Elvaston, a torre do Imperial College nada mais é do que um borrão. Mas na outra janela, no fundo do corredor, a madrugada branqueia de leite um jardim fechado entre as fachadas vermelhas. Se os tijolos e os encanamentos lembram a Irlanda, se um dia eu ali enxergar as ruínas da Palestina, que não haja indignação. O céu está de cabeça para baixo...



Do livro: “Le petit séminaire” – Ed. Flammarion - 2007




quinta-feira, 10 de julho de 2014

IDENTIDADE: MUSEU E FUTEBOL. E DRUMMOND PARA FINALIZAR.





Não ousarei falar daquilo que pouquíssimo sei. Quem me conhece, sabe que eu não acompanho futebol, tampouco as Copas, campeonatos, ligas etc. Em meio a tantas viagens, nestes últimos meses, acabei por acompanhar esta Copa do Mundo. A derrota da seleção brasileira está aí e dela milhares falarão sobre tática, estratégia, técnica, forma de pensar etc. Disto eu não posso nem vou falar (ou quase nada). 

O que falo é do Brasil e da peça motriz da formação de sua identidade: o futebol. Estou convencido de que este esporte, neste país, replica suas batalhas muito além do gramado. Talvez, como o Museu na França, o futebol seja peça imprescindível para a construção da identidade de um povo, como diz bem meu cunhado e filósofo Ewerton, retomando as ideias de um filósofo cujas aulas eu segui no curso de filosofia, na França.

Jean Louis Déotte demonstra, em seu livro “L’Epoque des Appareils” (A Época dos Aparelhos), que a ideia de Arte como conhecemos hoje somente se tornou possível a partir do surgimento da Instituição Museal. Sejamos claros: o museu não inventou a arte, porém ele inaugurou o que chamamos de “regime estético da arte”. O aparelho museológico, isolando o “material”, colocando “em suspense”, entre parênteses, a destinação cultural das obras de arte, ou seja, emancipando a obra de arte de seu passado, permitiu pela primeira vez na história da humanidade que estas fossem contempladas por elas mesmas. Os quadros saíram das paredes dos palácios e das casas da alta burguesia e se tornaram visíveis a todos. Este fato possibilitou ao homem a atividade kantiana de julgamento estético inevitavelmente contemplativo e desinteressado, baseada na relação entre imaginação e entendimento, gerando uma revolução frente ao que chamamos de sensibilidade comum.

Esta revolução se deve ao fato de o museu ter aberto caminho rumo ao reconhecimento da igualdade de nossa faculdade de julgar a obra de arte na medida em que o Museu permite a todos compartilhar da mesma experiência contemplativa artística e julgar o acervo museológico de forma igualitária, sem distinção de raça, cor ou origem social. Além disso, sendo a temporalidade do museu retroativa, as obras de arte contemporâneas são por ele absorvidas na medida em que elas detêm certa capacidade de “salvar” o passado. Neste ponto, falamos da instituição museal como uma espécie de “escudo” temporal onde o que está em jogo é o estabelecimento da “verdade histórica”. Desta forma, não seria leviano afirmar que a criação do museu é intrínseca ao desenvolvimento do julgamento estético e político de forma livre e igual no mundo ocidental.

Assim, podemos constatar que o museu exerce importantes papeis na sociedade contemporânea: ele configura a sensibilidade comum de um povo ao mesmo tempo em que inventa e estabelece a noção de igualdade social. Historicamente, o museu do Louvre, por exemplo, pode ser analisado sob esses dois aspectos: emancipando as obras de arte da obscuridade de colecionadores pertencentes à nobreza francesa e fazendo com que elas possam ser vistas e apreciadas de forma igualitária, trouxe à tona a experiência sensível de apreciação da obra de arte, experiência sem a qual o auto-reconhecimento do povo francês em uma identidade cultural comum e a consolidação da unidade política francesa seriam improváveis.

No Brasil, em seus mais de 100 anos de tradição futebolística, foi desenvolvida, a meu ver, a mesma capacidade de absorção e revolução da sensibilidade comum. Para que possamos falar de sensibilidade comum, é necessário, antes, pressupor a existência de coletividade. Correto. E, no Brasil, quando se trata de futebol, esta é formada por dezenas de milhões de torcedores, exímios jogadores de várzea ou profissionais. Hoje e ontem.

Mais do que uma mera modalidade desportiva, o Brasil criou, nos campos de futebol, um espelho em que o brasileiro se enxerga como unidade plural, da mesma forma que nossa língua pátria, ainda que tão díspare ao longo de nosso vastíssimo território, nos constrói como um único povo e nos une em nossas diferenças (sem nos esquecermos, no entanto, como sociedade, que anulamos, matamos, exterminamos nossas minorias étnicas e históricas como a sofrida população indígena e sua riquíssima gama de línguas e culturas).

Com o futebol (sim, com esta efemeridade, com esta tolice, diriam alguns), foi permitido com que compartilhássemos da mesma experiência contemplativa e pudéssemos julgar o jogo de forma também igualitária, sem distinção de raça, cor ou origem social. O futebol, pois, inventou e estabeleceu a noção de igualdade social (ainda que falaciosa, posto que o futebol é também passível de ser utilizado como instrumento de manobra de massa, i.e. na época de nossos governos ditatoriais).

Não falo aqui dos estádios da copa branqueados pela cor da pele da maioria dos pagantes, ainda que isto seja outro ponto relevantíssimo e já conhecido de nossas mazelas sociais. A igualdade social sobre a qual eu falo é aquela que identifica e reconhece uma nação.

Se estas hipóteses têm algo de validade, há de se pensar o que viria a acontecer com a desconfiguração desta âncora identitária nacional. Algum colapso à vista?

Fortunas despejadas na Copa. Fortunas públicas com relativa dubiedade em sua utilização. Não é nem nunca será por 1 centavo. Não há de ser. Onde fica a unidade identitária (não falo de representatividade política, por favor, não confundam meus apontamentos e não os utilizem, por gentileza, neste sentido)? A bola, mais uma vez, é com nosso Carlos Drummond de Andrade: 





FOI-SE A COPA?

Foi-se a copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
Havendo tenacidade,
Ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.

Apenas um apontamento, pessoal e cívico, sobre nossa atualidade. Parece-me que, na política, estamos como hoje estivemos em campo: ainda que alterássemos os jogadores, o placar talvez não tivesse sido tão diferente. E, neste caso, em meio à impossibilidade substancial de alteração (ainda que exista a possibilidade formal), posiciono-me com nosso “time” atual contra a volta dos coronéis, donos de nossos destinos “desde que o samba é samba”.

Fim de jogo. Ou começo de outro.

Ou que tudo não passe de devaneios de um homem sobriamente bêbado.