domingo, 29 de dezembro de 2013

LIBERDADE - POEMA MEU





amaciar fantasmas na lavanderia
o arame posto entre a cama e o mundo
é da força dessas palavras invisíveis.

o arame entre os olhos e as cores
são as grades de garcia lorca e o grito marítimo de neruda.

as grades arrancadas do chão
são carrancas tapete voador e a manta nua do rei.

palavras com pretensão de slogan são apenas mantra.
mas existe um zunido que me rala desde os confins.

parece que aquela placenta chamava a si de liberdade.


* Poema originalmente publicado em meu livro Onde (poeira pixel poesia), ed. 7Letras, 2011. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

FERNANDO PACHECO - "PIANISTA - CLUB BAND"

Fernando Pacheco e Lucas Guimaraens e, entre eles, o delírio da cor do som
"Pianista - Club Band" - Acrílico s/ Tela - 90x110cm - maio/2010
Acordei (será que acordei?) e ouvi uma música de vazios e plenitudes: sorriso na boca. Antes de me aproximar dos acordes, observei que havia um mundo inteiro a ser consumido através de uma aberta porta: figuras geométricas, retângulos, círculos, triângulos, aridezes do universo. Mas, destes incômodos, formava-se, ainda de maneira intangível, o perfil dourado da inspiração do artista, daquele artista que, em seu piano, me fazia sorrir. De um lance de olhos oblíquos, percebi aquele perfil se acoplando ao do músico, encantamento e justificativa da sua criação indefectível.

Ou, talvez, a história seja outra: o quarto ao lado do pianista era de brinquedos e ludismos, bolas, quadras de brincar e o onipresente perfil da inspiração, que toda arte primeva escorre dos olhos das eternas crianças.

Não sei. Mas recordei-me de Oscar Wilde e de seu "O Retrato de Dorian Gray". Naquela história, um acordo macabro de eternidade transfere as marcas do tempo do corpo físico de Dorian para um retrato guardado no porão. O retrato envelhece e se torna a monstruosidade escondida no inconsciente: "Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!".

"Pianista - Club Band"  é o maravilhoso oposto. Nele a juventude é como o rabo de lagartixa, inesgotável, sempre "eterna enquanto durar" e opera o milagre da atemporalidade naqueles que têm o prazer de conhecê-lo. 

O piano é tão vivo quanto seu executor. Recordo-me então do filósofo inglês John Austin e sua obra "How to do Things with Words". Ali, na esteira da filosofia da linguagem do austríaco Wittgenstein, Austin nos fala sobre os “enunciados performativos”: o ato de falar é uma ação que não somente descreve o mundo, mas o altera concretamente e, mais, cria novos mundos. A fala delirante do pianista, no ato de criação, altera o próprio piano, transforma suas bordas em um recorte da negra sombra do castiçal. Tudo é orgânico, movente e cria realidades: arte que incide espanto sobre os olhares atentos do espectador.


Os fins de ano, para mim, são momentos de observações macrocósmicas das realizações passadas e também de cansaço, claro. Este painel nocauteou o cansaço, rejuvenesceu.



Felicidade de ter a companhia deste pianista-club-band. O resto é cinzas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

POEMA MEU - DÓLAR FULGURANTE

Madiba se foi. Nestes tempos em que a apropriação de sua vida e discurso tornam-se a "menina dos olhos" de quase todas as posições, é possível, ainda mais, perceber os "ávidos olhos" que pairavam e ainda pairam sobre seus cabelos brancos - e agora prata eterna... 



ávidos olhos brilham sobre os cabelos brancos de mandela
aviões radioativos em bermudas e toda maneira de amor.
se o grito de munch liquefaz realidades e ilusão é lei
preferiria a violência antiga das máquinas datilográficas
com seus ruídos e teclas canibais que trituravam
os dedos e cabeças do silêncio.

se nações unidas roncam entremeios de falsa paz
e todos os anjos bailassem pela última vez suas asas decadentes
teria vestido a motocicleta de são jorge e escreveria com neil young
armstrong passos lunares cruzando o eldorado
e contudo o dólar brilha mais liberdades de sonhos. 

* poema originalmente publicado em meu livro "Onde (poeira pixel poesia)", ed. 7Letras, 2011.

domingo, 1 de dezembro de 2013

POEMA MEU - "OBSESSÃO"



acorda-me hoje com um sonho de amanhã.
explica-me a terrena rotação dow jones e diga
que poderei viajar para sibéria milão paris
ou a brevidade da terra do nunca.

acorda-me hoje e diga que a loucura foi lavada
que o riso só é possível na claridade seca de suas mãos
que os homens morreram e a cidade está deserta.

acorda-me hoje e diga que seus beijos são meus
que não vejo seu corpo e no entanto você existe nas minhas mãos ou no céu.
diga que seus passos são duas asas pirotécnicas e a esquadrilha da fumaça deu sinal a índios que já se foram pelas ruínas do forte apache.

diga que não vejo você mas que estas luzes me alimentam
que este show é real e as únicas paredes táteis
são essas que me cercam:
pixels escadarias de sonhos e a torre de marie antoinette
beijando os prantos do rosto do (rio) sena

nas manobras explosivas de um 11 de setembro qualquer.


* poema publicado em meu livro "Onde (poeira pixel poesia), ed. 7Letras