quinta-feira, 21 de novembro de 2013

ALLEN GINSBERG: ENTREVISTA DESCONHECIDA FEITA PELO POETA FRANCÊS BRUNO CANY - 1979


ALLEN GINSBERG: O POETA TRABALHA A CONFUSÃO



Jornal: Canal
Número: 29/31
Período: julho/setembro de 1979
Coluna : Textos, Poesias e Margens
País: França
Entrevistador (Colaborador da Redação): Bruno Cany
Entrevistado: Allen Ginsberg
Tradução para o português: Lucas Guimaraens


Fac simile do Jornal "Canal" nº 29/31


“Allen Ginsberg acompanhado (no banjo) de Peter Orlovsky e de Stephen Taylor (no violão) acabam de passar alguns dias em Paris. Início de uma turnê de leituras na Europa inaugurada em uma noite em Beaubourg (organizada por Gérard-Georges Lemaire), na quinta-feira, dia 31 de maio. Continuação na sexta-feira, sábado e domingo no American Center, onde mais de cinquenta artistas americanos e franceses se apresentaram sob a direção de Alain Jaubert e Jean-Jacques Lebel.”



Allen Ginsberg, em um domingo do dia 3 de junho de 1979...



(...) Sim... Não me consultaram sobre o título e Alain Jaubert estava ausente do deal... Uma grande parte dos textos é dos anos sessenta. Nesta época, eu cantava muito Om e os jornais não notaram que em 1972 eu passei ao Ah. No momento dos eventos de maio em Boulder, Colorado, perguntei ao meu guru, o poeta, instrutor de meditação, Chögyam Trungpa Rimpoche, se eu podia fazer alguma coisa... Eu estava ali em visita. Havia um grupo na rua, eu entrei no imóvel. Eu via, da janela, um grupo que não sabia o que fazer. Então eu disse: você não tem uma opinião? Por que você não põe fim à guerra? E ele disse: eu sei. E esta foi a sua palavra. Então eu disse: mas há alguma coisa que eu possa fazer? Ele me disse: talvez você possa tentar o Ah. Naquele momento, eu desci novamente. Quando foi minha vez de falar, eu cantei Ah; um grupo repetiu o mesmo e isto acalmou suficientemente os espíritos para que eles pudessem discutir sobre a situação, para que eles pudessem decidir se queriam caminhar pelos gases lacrimogênios e bloquear uma estrada ou se juntar aos outros para fazer outra coisa... Mas existia espaço para decidir sem ansiedade.

Ah é um mantra tradicional para indicar a purificação da palavra, da língua, purification of speech, que vibra na garganta e na laringe. Mas é, também, tradicionalmente, a valorização do próprio espaço. Nos Estados Unidos, ele é bem comum enquanto expressão normal de valorização. No dia 4 de julho, quando há fogos de artifício nos céus e todo mundo canta Ah... é uma palavra americana, também tibetana, também esotérica e também exotérica. Eu a utilizei na convenção de Miami e nós a aplicamos como canto de unificação durante a manifestação para acalmar, tranquilizar as pessoas. É um som de reafirmação da segurança e um meio de valorização da situação, aberta.    

Om é um pouco mais esotérico, fechado, trancafiado. Existe também uma diferença cultural, como disse Trungpa, um elemento de materialismo espiritual numa dependência de sua ordem, espiritual, entre parêntesis. É um pouco demasiadamente “profissional do Leste” (oriental). Eu prefiro alguma coisa mais sutil. Eu me decepcionei com o Om porque eu queria alguma coisa mais próxima da consciência ordinária e não uma coisa assustadora... terrível... pela burguesia. Om é bom, mas é apenas uma parte da trilogia: Om (o coração), Ah (a inteligência e o logos) e Hum que significa a própria consciência, o espírito condensado no coração. Trata-se de um jogo de palavras e é um jogo de coração porque o espírito procede verdadeiramente do coração, no processo da respiração. O espírito quer dizer o ar que se respira. É a raiz da palavra, como em inglês: spiritspiritusrespiration.

Bem! Assim, nós temos o Om e o Ah. Talvez, na reedição, o livro terá seu verdadeiro título.

Eu fiz uma primeira leitura na França com George Whitman, em sua livraria Shakespeare and Co, em 1957 ou 61. Eu li com Peter Orlovsky e talvez com Gregory Corso e eu penso que William Burroughs estava presente. Havia 30 ou 50 pessoas...

– Aqui, havia 1500.

Em Beaubourg?

– Sim.

Isto também teria sido possível com George Whitman se existisse em Paris um organismo cultural para apresentar os jovens escritores americanos. Porque nos Estados Unidos nós éramos conhecidos... Eu tinha publicado Howl em 1956 e teve muita publicidade em torno disto porque eu fui processado e eu estava nas revistas internacionais. Enquanto que em Paris, nesta época, havia uma lassitude, uma falta de energia na criação.

Eu também sou professor e diretor do departamento de poesia no Instituto Naropa, em Boulder, no Colorado. Nós publicamos alguns livros de explicação de texto e anais: Talking Poetics da Escola Jack Kerouac de Poéticas Desencarnadas. Nós publicamos ensaios, textos teóricos, mas também improvisações poéticas. Eu ensino neste espaço interessante: é o espaço de budistas tibetanos. Entre os anos 40 e 60, eu descobri o Livro dos mortos tibetano, e eu encontrei um guru, um lama, Trungpa, que me escolheu e eu o escolhi para um casamento de espírito... Ele me ensinou a meditação tibetana... Eu pratiquei por três meses durante o ano de 1973 e em 1974 ele me solicitou que eu pegasse a responsabilidade do ensino com este espaço de meditação... como o espaço branco na pintura... Você compreende? Enfim, há cinco anos, Anne Waldman – que está igualmente no filme "Fried Shoes, Cooked Diamonds"[1] – e eu co-dirigimos uma sessão da Faculdade de poesia em Naropa. Dick Gallup e Michael Browstein são os dirigentes permanentes. Nós ali recebemos professores visitantes. O princípio é que somente poetas plenos podem ensinar, o que evita a teoria sem a práxis. Eles ensinam a prática da poesia mas, também, para aqueles que o querem, a prática da meditação. Os professores-missionários são W.-S. Burroughs, G. Corso, S. Sontag, K. Millett, Diane Di Prima, Timothy Leary, D. Ellsberg, autor dos Pentagone Papers, que contribuiu imensamente para o fim da guerra do Vietnam, Robert Creely, Robert Duncan, John Ashberry, Philip Whalen, Kenneth Koch... todos os escritores dos anos 50-60 e os mais jovens também. Existem alguns que são conhecidos na França e outros que nunca foram publicados, mesmo nos Estados Unidos. Há também monges japoneses zen que vêm  ensinar e dançarinos, músicos de jazz clássico e moderno, como Don Cherry que voltará este ano... Ali, ensinamos também a dança, a psicologia, o teatro, a metafísica, o sânscrito, o tibetano... A escola é muito pequena e eu trabalho sem ser pago; isto é financiado pelos estudantes e os maestros e tudo isto é sustentado no limite... Minha turnê pela Europa permitirá que eu viva e trabalhe neste verão em Naropa, onde eu vou ensinar os livros proféticos de William Blake.

Isto é um projeto que eu comecei há dois anos e eu vou continuar sobre as Quatro Zoas que são os princípios de razão, de emoção, de corpo e de imaginação... Nós também temos leitores de poesia como aqui no Centro americano: em cada quarta-feira, dois ou três poetas e, duas vezes por verão, nós temos as leituras monstro, com 40 ou 50 poemas de até dois minutos de duração... Um haiku, dois haikus, um poema rápido, para “brilhar”... Se a gente é um poeta, pode-se realizar um flash instantaneamente e se a gente é um pensador, talvez isto seja difícil. Mas o sentido principal é a espontaneidade, a abertura, a elegância no caos... como o próprio mundo. Isto quer dizer trabalhar com a confusão. Manter a abertura do coração e usar o espaço do momento aceitando este espaço sem conflito, dentro da harmonia... Isto quer dizer a situação mundial ou imediata. Este axioma é baseado na prática da meditação...

Se descrevemos a prática da meditação, espontaneamente os pensamentos do mundo passam. Eles estão ali sem razão, eles vieram sem nascimento e desaparecem sem morte.   




       





[1] N.T.: Documentário sobre Naropa, realizado em 1978. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Poema O MURO de BRUNO CANY

BRUNO CANY : poeta, filósofo e professor na Université Paris 8, Cany faz parte daqueles nomes desconhecidos no Brasil e absolutamente imprescindíveis para fazer parte de nossa memória e leituras.



Bruno Cany
                     

O MURO (2004, Ed. Trait Court, coleção “Passage d’Encre”; Seine-Saint-Denis, França)

Entre a descrição lúcida (e quase neutra) dos acontecimentos/fatos e o peso das dores e das alegrias, todo um mundo de pesadelo e sonho é criado.

Pesadelo, posto que não sabemos nunca se o personagem está acordado, se sonhou, se sonha ou delira. O horror dos acontecimentos nos faz pensar, em um determinado momento, se não seria melhor se ele estivesse em um eterno processo de torpor.

Sonho, posto que sempre há esperança, apesar da vida: as notas e acordes de Rostropovitch, nosso personagem real-ficcional e protagonista de uma das cenas mais emocionantes de nossa história recente (vide vídeo abaixo, Queda do Muro de Berlim), englobam o Muro e acalantam o homem atordoado e o delírio dos vestígios arqueológicos da história.





Lugar de uma verdadeira Weltanschauung (visão, opinião, representação, concepção do mundo de cada um de acordo com sua sensibilidade particular), a obra de Cany é exemplo indefectível do poema em prosa (não confundir com prosa poética). Esta escolha de forma e estilo reside, talvez, no fato de que o poema em prosa propõe uma visão e uma concepção  do mundo que a leitura deve (ou deveria) incitar nos possíveis leitores.

Desta forma, a prosa do poema permite a mistura da poesia e da filosofia e apresenta ao leitor uma confrontação com o mundo ao seu redor.

Em seus trabalhos filosóficos, Cany se pergunta sobre o universo prosaico em ruínas e, a partir daí, sobre a possibilidade de refundação da estética contemporânea. Para tanto, ele revisita algumas etapas cruciais da história, de François Ponge a Homero ou de Nietzsche a Xenófanes. O autor defende a possibilidade de uma nova elaboração musical da sintaxe do poema no que tange seu contato com o romance contemporâneo e propõe o reencontro com a potência da imagem cujo status poético foi abalado pelo desenvolvimento – na modernidade – da fotografia e do cinema.  Para os interessados, ler sua obra Fossiles de Mémoire (ed. Hermann, collection Hermann Philosophie)


Bruno Cany e eu, em sua conferência no Rio de Janeiro, 2013


Vamos ao seu belíssimo poema em prosa:


O MURO

Por Bruno Cany
 (tradução: Lucas  Guimaraens)

Cercada por um muro, a cidade Oeste era a cidade livre e, por um curioso efeito de inversão, a cidade Leste que a havia englobado era a cidade cativa.
            – pois é ela mesma que havia aprisionado, enclausurando sua irmã. 

            Rodeada, a cidade Oeste induzia em seus habitantes – ao menos naqueles vindos de fora – um forte sentimento de claustrofobia:
Josef, por exemplo, pegava ocasionalmente seu carro e seguia em direção ao oeste, até a fronteira;
e, ali chegando, fazia um retorno: Ter simplesmente podido alcançar o Oeste o tranquilizaria pelas semanas vindouras.

Enclave do Ocidente democrático, a cidade confundia nosso sentimento geográfico:
Não mais compreendíamos bem as direções nem as distâncias.
Na esquina de uma rua, eu me recordo de ter encontrado uma placa indicando Königsberg.
Encontrava-se no cruzamento da Lindenstrasse e da Kochstrasse: Königsberg era anunciada a 590 quilômetros,
e eu tinha a impressão que o velho Immanuel Kant lá estaria, no fim da estrada, se assim eu decidisse segui-la...


A evasão

            Fazia vários meses que ele estudava a meteorologia, a posição da lua, o negrume da noite.
            Era necessário a chuva para encobrir os barulhos, um vento contrário para enganar os cães.
            E assim passavam meses em que ele esperava que as condições fossem finalmente reunidas.

            Um ano mais cedo – era 1965 –, ele já portava cabelos compridos,
            escutava os Beatles e os Rolling Stones, mascava chicletes...
            Não era um contrarrevolucionário, ele tinha dezessete anos e a cor dos seus jeans era como as meninas de seus olhos;
            e como todos os rapazes, ele aspirava a liberdade, compreendendo mal a propaganda cultural.
            Não era, pois, um agente do Oeste, mas cortaram-lhe os cabelos e arrancaram a etiqueta de sua Levi’s.
            E, quando ele quis passar o posto fronteiriço para chegar a Praga, o oficial de guarda perguntou a ele:
            “Você precisa de todos os seus documentos para partir de férias?”, antes de envia-lo para a prisão por três anos.
            O velho homem com o qual ele dividia sua cela falava com ele do canal Teltow,
            das árvores que o margeiam e dos altos arbustos sobre o passeio de pedestres.
            Ele falou também da torre de vigília e das zonas de sombra que deixavam os holofotes.
            A configuração do canal (que neste ponto forma um arco de 900 metros por 25 de largura),
            a ausência de casas (nesta parte do subúrbio, no sudoeste da cidade),
            e a pouca vigilância (do lado dos bosques e dos cursos de água, a fronteira era menos impermeável do que na cidade)
            permitiam mergulhar ali onde começa a death zone, a menos de 1 quilômetro da fronteira.

            Em sua saída da prisão, em maio de 1966, ele descobriu sua paixão pela água:
            Nadando cotidianamente por um quilômetro, em um ou outro de seus numerosos lagos que rodeiam a cidade,
            procurando se habituar ao frio, ou ainda ele treinava para permanecer imerso por um minuto...
            E tudo isso na espera da noite ideal.

            Mas em um belo dia, ou, melhor, em uma bela noite, as condições foram finalmente a seu encontro: o vento, a chuva, sem lua.
            É a noite do dia 26 de agosto. Uma noite, em sua aparência, mas apenas em sua aparência, como todas as outras. 
            Sem prevenir ninguém, um saco plástico contendo seus documentos em torno de seu pescoço,
            ele alcança a pequena cidade de Teltow. Em seguida ele se encaminha, a pé, para o canal,
            ali esconde entre duas raízes sua camiseta e seus sapatos, mas guarda consigo seu novo blue-jeans.
            E, na sombra da grande ponte, ali começa o no man’s land,
            o corpo besuntado de óleo para se proteger do frio, ele desliza na água – são 23h30.
            Ele ziguezagueia entre os holofotes de uma margem à outra. Permanece sob a água o máximo de tempo possível.
            Ao fim de cada diagonal, ele para e se esconde entre os altos arbustos, permanece imóvel, silencioso, atento a qualquer barulho.
            No final de duas horas, ele avançou apenas 200 metros – e ele está congelado.
            Um cisne, inesperado, o ataca violentamente. O bater das asas em torno de sua cabeça faz um barulho infernal; mas, curiosamente, ninguém parece ter sido alertado.
            Uma hora mais tarde, ele chega na altura da pequena ponte. Um cão o recebe. “Cale-se”, lança uma voz em resposta.
            Dois soldados aparecem. Encostam-se no parapeito para o tempo de um cigarro. Os minutos passam, intermináveis...
            Ele bate os dentes, refrigerado, e deve encravar os dedos em sua boca.
            Finalmente atravessada a pequena ponte, a torre de vigília está à sua direita e, longe, à esquerda, Berlim-Oeste.
            A fronteira, a cem metros, parece muito próxima;
            mas entre ela e ele há uma grade que se eleva por 3 metros acima da água.
            O velho homem havia sugerido que ele deveria poder passar por baixo. Mas ela está fincada no leito do canal.
            Ele se dirige, então, rumo à sua extremidade, empurra as barras,
            e se encontra, suspenso, no campo luminoso da torre de vigília.
            No entanto, como nada acontece mais uma vez, ele cruza a derradeira diagonal e se emerge sobre a margem.

            Exausto, gelado, aturdido, ele ali fica, ofegante, de frente para o caminho percorrido. Ao seu lado, a placa indica: “Aqui termina Berlim-Oeste”.
            São 3h30. Torso nu, cambaleando e ensopado, ele ingressa no check-point de Dreilinden.
            Bate na janela de um carro no estacionamento e pergunta: “Estou em Berlim-Oeste?”
            Alguns instantes depois, ele pergunta novamente: “Estou em Berlim-Oeste?”
            E, quando, finalmente, seu espírito compreende a resposta, ele desmaia.
            A partir daí, Hartmut Richter tornar-se-á um contrabandista. Mas esta é uma outra história...

            O Muro cortou uma cidade em duas, um país em dois, a Europa inteira em duas. A Europa tornou-se esquizofrênica.
            Quilômetro zero: Ondas e Forças – centrípetas e centrífugas – irradiam ao longo dos dois territórios.
            Diástole-sístole. Leste-Oeste. Nós estamos no coração geoestratégico do Mundo ocidental.
            A queda do Muro é um novo ano zero para a Europa. O ano zero de seu renascimento. Dos Estados desunidos da Europa.


Improvisação

            O telefone toca em seu apartamento parisiense. “Ligue imediatamente a tv”, diz uma voz amiga.
            Pessoas estavam no cimo de uma espécie de plataforma e estendiam as mãos para puxar as outras.
            Jovens escalavam, velhos aplaudiam. Havia troca de flores, lágrimas que escorriam, cantos que se elevavam...
            Então, compreendi: “Berlim. O Muro. O fim. E quase imediatamente eu queria lá estar.”

            Era um assunto dos mais íntimos: A história de sua vida ressaltava ali e ele queria estar presente – o que seria mais natural?
            No avião particular que o levava, ele não descerrou seus lábios. Os acontecimentos repassavam diante de seus olhos:
            Prêmio Stálin em 1951, prêmio Lenine em 1964, “Artista do povo” desde 1966...
            Ele não tinha nada verdadeiramente de um dissidente. Não fazia política, nem mesmo ele quisera um dia fugir.
            Ele era um artista oficial, coberto de honras e feliz de o ser.
            E tinha a fidelidade a seu amigo, escritor condenado que ele abrigou em sua datcha dos arredores de Moscou.
            Sua carta pública para defender aquele que, entretempos, havia se tornado um prêmio Nobel.
            E, finalmente, o anúncio na televisão, quando ele viajava no exterior, de sua privação da cidadania soviética.
            Sua vida acontecera nos dois lados do Muro. Sua alma russa e sua cultura ocidental
iriam, finalmente, poder se harmonizar. Por isto ele queria estar lá.
            O assunto era entre ele e ele. Por isto ele não confidenciou a ninguém seus movimentos.
            O Muro caía. Era atordoante, extravagante, impossível e magnífico.
            O planeta Terra, de repente, iria parecer maior.
            Ao motorista de taxi, ele gritou: “Para o Muro! Rápido! Por onde você quiser!”
            Diante do Muro, ele para quem o exílio não fora jamais uma escolha,
            ele que preferiu ser apátrida do que aceitar a ideia de ser extirpado do chão onde Deus lhe fez nascer,
            ele que não será jamais o homem de uma só nação, diante do Muro, então,
            seu desejo é de tocar Bach. Para ele mesmo – e para agradecer a Deus.
            Estamos no dia 11 de novembro de 1989, não faz particularmente calor e ele se imagina sozinho.
            Mas, partido às pressas de Paris, nosso maestro esqueceu-se de se munir de um banco!
            Descobrindo neste instante como este acessório é tão indispensável quanto o instrumento venerado,
            ele toca a campainha de um zelador, seu violoncelo sob seu braço.
            Um homem aparece e o analisa, “Você é Rostropovitch?”
            Três minutos depois, o homem retorna com uma cadeira e vinte pessoas!
            Ele toca, pois, Bach. Mas as peças mais alegres tornam-se misteriosamente tristes sem o seu arco.
            Ele propõe, então, de tocar em memória daqueles que caíram tentando alcançar o Muro,
            e ele engendra uma Sarabanda que, finalmente, soa alegre.
            No filme amador vê-se, os olhos baixos (para não dizer fechados), o velho Rostro
            esculpindo, sentado, notas que se esvoaçam... e envolvem o Muro;
            enquanto que no fundo, na pequena multidão desta improvisada prece ao Mundo,
            lágrimas escorrem sobre as bochechas de um jovem...

                                                                                                (Setembro de 2004.)