quarta-feira, 23 de outubro de 2013

POEMA MEU - VAGABUNDOS

Para todos os vagabundos cuja pena, acordes, pincel, película ou picareta alcança a desconstrução para a criação:
















“The bum’s as holy as the seraphim! The madman is holy as you my soul are holy!”
(Allen Ginsberg, nota de rodapé para Howl)

“Se eu já nem sei o meu nome
Se eu já nem sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz estrada pó
O jeep amarelou”
(Toninho Horta e Fernando Brant, Manoel, o Audaz)
vagabundos
vaga mundos
vagos mundos
vagarosos mudos
vesgos surdos
verso entulho.

eram vozes das batidas psicodélicas:
algo bob dylan flutuando sobre a nuvem cigana e agora a poesia estacionou vagarosamente na intangível pixelizada moderna ágora.

vagando o mundo com manoel, o audaz
vou a andaluzia ou diamantina ouvir pedras de ferro
e planos mirabolantes de transformar o mundo com canções.

fui cumprir a solução final: do sonho púrpuro vestir manoel de trator e acabar de vez com a Igreja Bom Senhor Jesus do Matozinhos ver se aqueles dois profetas desistem de apontar o céu e me ofertam a mão para sair ileso e aquecido do nono círculo do inferno.

vou construir outros muros com restos de igrejas e berlim e dançarei uma última vez aquele velho tango na oktoberfest.

nestes dias é sempre aquele medo da limpeza dominar.
não quero enxergar meus olhos chorosos nos tacos lustrados.
não quero amanhecer sem contrastes.
não quero cuspe como água potável.
quero envenenar-me de hoje.
quero envelhecer para sempre
e raptar a princesa encantada
das mãos da genérica bruxa de (tony) Blair
e suas capitalizáveis assombrações.

não quero higiene para não inspirar
a fumaça de sangue dos extremos.
não quero despedir-me dos vagabundos.
não quero despir-me de pixels.
não quero recriar genocídios.

quero brilho neon de radioatividade e virtuose.
quero provar da parreira embalada a vácuo no mercado grã-fino
e agradecer ao tio sam pela alucinação nossa de cada dia.


domingo, 20 de outubro de 2013

NORMA BENGELL, OS CAFAJESTES E AS DESVENTURAS QUE NÃO MATAM SONHOS





1962: Os Cafajestes: Ruy Guerra (direção e roteiro). Hugo Carvana, Glauce Rocha, Jece Valadão, Daniel Filho. E nossa maior estrela que virou estrela eterna: Norma Bengell.


“Jandir (Jece Valadão) e seu amigo Vavá (Daniel Filho), um playboy, vivem no mundo das drogas e sexo de Copacabana. Só que a situação de Vavá não é boa, já que seu pai corre o risco de perder tudo o que tem. É quando a dupla tem a ideia de tirar fotos comprometedoras de Leda (Norma Bengell), a amante do tio de Vavá, no intuito de chantageá-lo. Eles a levam a uma praia deserta e, após tirarem as fotos, a estupram”.

 

Nestes últimos dias, no meio a eventos mil, entre Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, uma clareira abre para assistirmos, eu e Bituca, a “Os Cafajestes”. Eu não havia visto este filme. Ele também não. De pronto, ficamos estarrecidos, nocauteados com a fotografia da película. Sombra e luz intercalando todo o tempo as nuances de vidas perdidas. Sombra e luz com feixes de balas estourando luas: o mundo está perdido baby e nossos passos são como os de Meursault, personagem de Albert Camus: um salto para a morte.


A alegoria da morte é, no entanto, o encontro entre o 0 grau e o 360 graus de uma circunferência. A vida só se completa se inventamos um cais e sabemos a dor de nos lançar (parafraseando o genial Ronaldo Bastos em sua parceria com Milton Nascimento, “Cais”).


Neste longa, Norma protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Subversão. Na cena final, um homem solitário, um carro, e as notícias no rádio de um mundo em ruínas. Ele assim permaneceu e, anos depois, a ditatura viria com toda a força.




Ditadura esta que matou tantos sonhos. Não matou Norma. Mas a espancou por sua liderança contra os atos de censura, como atesta esta foto emblemática de 1968. Como anistiada política, a atriz sobrevivia com a pensão de R$3.100,00. Só o plano de saúde era de R$1.516,00. Amigos se cotizavam para ajudá-la. Milton Nascimento pagava o convênio médico. Nada mais natural para estes dois amigos que abraçavam o mundo contra suas injustiças. 




Impedidos de adotarem o engraxate, adotaram o mundo:

Norma e Milton eram unos. Queriam acalantar corações, adotar os desamparados. Os tempos eram de chumbo e as amizades eram etéreas (e eternas foram elas posteriormente comprovadas). Os dois amigos, nas andanças de trabalho e passeios, se encontravam em Ilhéus naquele verão. À tarde, possivelmente uma cerveja à mesa, um bar na orla da praia. Dias claros que tentavam a todo custo acobertar as horas daquelas noites sem fim. Celebração da amizade. Para Norma e Milton, no entanto, o sol não se encontrava no céu: estava sobre a calçada, na frente de suas mesas. Era um garotinho e sua nobre profissão de engraxate. De uma alegria, delicadeza, verdadeiro raio solar. Os dias passavam e a paixão de Norma e Milton pelo garoto permanecia. A ponto de os dois, sempre em conversas e risos com o menino, pedirem a ele que fosse adotado pelos dois. De pronto, o menino, feliz, disse: “Muitos vêm aqui e alguns já me disseram que iriam me adotar. Eles nunca voltaram para me buscar. Em vocês eu acredito”. Visitas à casa dos pais do menino, tudo acordado. Bituca e Norma voltariam para o Rio e, em pouco tempo, estariam em Ilhéus para buscar o engraxate de sonhos.


Volta ao Rio, início do pesadelo. Com o advento das violências frontais notadamente contra Norma (a repressão entrava a pontapés em sua casa, espancamento era seu jantar), a cautela se fazia imprescindível. Tristes, muito tristes (com uma dor sem fim, até hoje, como o próprio Milton me disse há alguns dias), decidiram pelo inevitável: não podiam trazer uma criança para viver naquela realidade. A violência da repressão não poupava idade, não poupava anjos. Não havia ser humano; havia estorvo. Nunca mais o viram mas é como se com eles tivesse sempre permanecido. 

Um exemplo de vidas quebradas e de caminhos estilhaçados pelos homens de cinza.

Alguns sonhos ficaram no mundo dos sonhos. O que, de uma maneira estranha, enriqueceu o mundo. Norma e Bituca muniram o universo com a melhor de suas armas: o amor, as artes, a poesia das esferas.

Viva Norma Bengell e Milton Nascimento que a todos nós adotaram.










sábado, 19 de outubro de 2013

PODE ME OUVIR, MAJOR TOM? - POEMA MEU


Pode me ouvir, major tom?

“Planet Earth is blue and there’s nothing I can do”.
(David Bowie, Space Oddity)




a vontade de drummond não era perder a filha e se perder
não era a de tolstoi agarrar-se às palavras de fé e foice
e cantar pela neve a mística de sua cidade ideal flambada à vodca.

dos camelos não era represar o deserto do saara
e sugar histórias submersas.
do e.t. de spielberg não era iluminar o dedo
e chorar de tanto preto na lucidez da noite fendida por cães.

irmã dorothy teria preferido
fuligem de mil matas e os furos
da peneira do garimpo clandestino
à flor vermelha pingando em sua cabeça.
chico mendes teria apagado o destino
com a borracha de sua poesia e profissão.

o rock’n roll não queria livrar-se dos seixos claros da ópera
e todas as estátuas não queriam ser estátuas.
rimbaud não preferiria ser eterno e
gozar carne e palavras em garcía lorca?

não era para ser.
mas todas essas bandeiras estendidas
tornaram-se imenso varal de esperanças.

não era para ser.
mas a salvação veio pelos nós
naufragados de titanics.
and there’s nothing I can do                    
(pode me ouvir, major tom?)

domingo, 6 de outubro de 2013

YEDA PRATES BERNIS SOBRE MEU LIVRO "ONDE"





Que “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”, já sabemos por Guimarães Rosa.

E sabemos também da Poeta Yeda Prates Bernis (Academia Mineira de Letras) e de seus suaves poemas o que falou Carlos Drummond de Andrade: “das criações poéticas mais delicadas que já se fizera entre nós”.

Agora, recebo desta Poeta uma gentilíssima carta, após ter lido meu livro “Onde (poeira pixel poesia)”. Assim ela escreve:


“Agora vem você com Onde, para nos afirmar que o DNA poético da família é muito forte.

Você mostra erudição, percepção do mundo, sensibilidade, usando até terminologias virtuais, em uma poesia de temática bem moderna, sem arranhar sentimentos do leitor.

Estou muito grata a você por esta generosidade que enriquecerá minha estante de poesia”.


Muito obrigado, Yeda, pela delicadeza. Importante isto nestes dias em que não sabemos se chove ou se faz sol...