segunda-feira, 30 de setembro de 2013

FADEOUT (OU EFEITO ALZHEIMER) - POEMA MEU


Que perdidos nos encontramos todos. 


FadeOut (ou efeito Alzheimer)

“A água da minha memória devora todos os reflexos.”
                                                                       (Cecília Meireles, Medida da Significação)



é rebobinar
ou skip to the next level
marcha moonwalker
da cor solvente do negro ao branco
da varanda cujo vidro não existe
e no entanto é frio e frágil.

tapetes queimados
sapatos vazios chão mudo
janelas de espanto:

cheiros noturnos de memórias soterradas em buffer 
todas as casas castelos e palácios voltaram para suas caixas
junto a jogos de damas war xadrez e o kit cientista maluco
(nunca mais peças do jogo sumirão
e pantagruel mijará pixels sobre as cidades).

(se não houvesse um histórico em meu browser, conseguiria voltar para casa depois de tantos bytes? alguma vez já voltei?)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

INSPIRAÇÃO - POEMA MEU

Poema de meu livro "Onde (poeira pixel poesia)".



Inspiração






o pássaro fugiu da minha mão
furo de percepção.
como um hitchcock cortante
e ingrid bergman com olhos lunares
à meia luz observando os saltos arrepios
no vaivém do gás da eletricidade.

ou como john travolta na ficção pulp
polpa de sangue atual
ainda que ralo e banal
versando ao corpo trêmulo
como vozes gregas
ou pastor manco de new orleans
prenúncio da breve morte.

o pássaro fugiu da minha mão
posto que todas as histórias
já foram escritas
e ventam vivas em todas as artes e migalhas de blogs – ainda que pérola ou poeira.

este pássaro é fugitivo porque excita suas asas o suor fractal da poesia escrita sem luvas:
respirada em cotidiano
respingada no rápido processo suor do fórceps das mil mãos que reproduzem – diariamente – interferências das impressões digitais do retrato de uma             [geração

(violenta descoberta de que toda imagem é ilusão).

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

TEMPESTADE EM NAU DE POESIA: PALAVRAS DE SECCHIN SOBRE MEUS POEMAS



Dessas coisas despretensiosas vindas dos mestres. As palavras que recebi hoje de Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras. Poeta, ensaísta, tradutor de escol, claro, dispensa apresentações. 

O que eu não dispenso é a felicidade das poucas e positivas palavras de Secchin acerca de meu livro "ONDE (poeira pixel poesia)". Ele assim escreveu hoje: "Caríssimo Lucas, retomando a conversa: além de "Onde", gostei muito de "Quando" (você é poeta de espaço e tempo, rs!) e de vários outros poemas. Parabéns pela manutenção da tradição literária do ilustre sobrenome." 




Tempestade em copo d'água? Não para mim: tempestade em nau de poesia. 

Um agradecimento imensurável ao poeta e ensaísta (o melhor sobre João Cabral de Melo Neto, como o próprio apregoava) pela gentileza em contemplar os novos.

Como prometido em meu facebook, posto, aqui, os dois poemas aos quais ele se refere.


Vamos ao espaço:



Onde

Gostaria de levá-la  ao norte da felicidade.
Ali, à direita deste instrumento: enter.
Onde dores aparecem e – com elas –
a reciclagem de céus. Outros céus de humanidades.

Gostaria de levá-la ao norte da felicidade.
No antigo ocidente de meus sonhos.
Antes deles, até. Naquela gaveta vagando no mar de naufrágio
onde putas aids e morte
viviam além de meu horizonte (sempre belo, ainda que distante).

Onde descobri o homem como anátema da vida
da vela suspensa em seu mastro já cansado.
Onde o vício é bem-vindo onde palavras do chão
são luzes. Apenas elas portadoras das cruzes
que identificam e reconhecem uma cidade.

Quero convidá-la para onde o vento não bate
mas sempre renova sementes.

Quero convencê-la de mim:
escrever em sânscrito: o homem são homens.
Onde meu norte é seu sul.

Onde metralhadoras e bactérias existem
e só podem ser caladas na noite  onde
                       – acordados –
homens inexistirão em separação.

(Cá entre nós,
de ego para ego,
quero levá-la acorrentada à palavra utopia).     




Agora vamos ao tempo:


Quando

quando o labirinto entre os dentes
liberar substâncias químicas de alforria

quando samambaias deixarem de escorrer
os lisos cachos pelo corredor que leva ao quintal

quando ranhuras das mãos
não mais forem vestígios de animosidades

quando você sorrir pelo presente
baby teremos balada bela a girar
entre os cílios da noite.

nossos filhos poderão nascer em paz.