quarta-feira, 28 de agosto de 2013

5 ANOS DA MORTE DO POETA ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO










Poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, 5 anos de sua morte. Uma vez, em 1998, eu, com 19 anos de idade, havia trocado aproximadamente 20 cartas com o Poeta. Numa delas, naquele ano, ele escreveu algo que não mais esqueci. Era mais ou menos: “leia muito os poetas que mais admira e, na medida do possível, leia os poetas estrangeiros em suas línguas originais”. Em seguida, falando sobre os poemas que eu enviara alguns dias antes, ele disse já sentir, aqui ou acolá, uma linguagem própria e que, em alguns pontos, eu alcançava o lirismo, que é, segundo ele, “alma da poesia”.

Aqui, neste trecho do filme de Paulo Thiago, “O Poeta de Sete Faces”, Alphonsus de Guimaraens Filho fala sobre seu amigo da vida inteira, Drummond e sobre a amizade e o famoso Sabadoyle, importante encontro de grandes intelectuais e escritores no Rio de Janeiro (a partir de 5’’34’’’):



Classificam Alphonsus Filho como modernista da terceira fase, tendo, seu primeiro livro, “Lume de Estrelas”, escrito entre os anos de 1935 e 1939. Em 1944-1960, escreveu “Aqui”. Modernista na certa, mas muito além:

Cadeira de Dentista

Qualquer coisa nos diz que a liberdade é próxima.
Do alto do edifício, a paisagem se modela nitidamente ao sol.
Mas que paisagem? São os mesmos blocos de edifícios altos e sujos.
E a solidão das janelas.

Qualquer coisa nos diz...
E, no entanto, esta inexorável submissão ao destino.

Ou, neste delfim, um dos mais geniais versos do poeta:

O Delfim

Deu-se que não havia chá, nem salão, nem mesmo
a dama que me esperava.
- O delfim estará?
- Senhor, o delfim é ausente.
- Então três chávenas de chá-da-índia! Três chávenas de chá-da-índia!
(Pausa)
- Mas... o delfim é ausente?
- Senhor, o delfim é morto desde os idos de dezembro.
- Então, três taças de lua! Três taças de lua!
Por Deus, três taças de lua!

Lírico também na certa. Disse Alexei Bueno: “De “Lume de estrelas” (1940) até “O Tecelão do assombro” (2000), “delineia-se uma das trajetórias mais longas e coerentes do lirismo brasileiro””.

Alguns versos literalmente sonhados, uma companheira e musa de toda vida, Hymirene Papi Guimaraens, para transcrever os versos balbuciados em sonho pelo Poeta e a genialidade da pena do mesmo ao acordar e arrematar o que havia delirado:

Poema Sonhado

Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis do assombro.

Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade?

Em 2008, agosto, o Poeta faleceu. Publiquei, no Jornal Estado de Minas, uma “Carta Aberta a Alphonsus Filho e que aqui reproduzo:


Segue o texto deste artigo: 

Carta aberta a Alphonsus de Guimaraens Filho: as palavras que nunca disse
(por ocasião do falecimento do poeta: 03/06/1918 – 28/08/2008)
por Lucas Guimaraens

É um misto de dizer adeus sem querer dizê-lo, em respeito ao poeta. Ele perguntou: “Onde estão os moços dos tempos d’antanho?”[1]. O silêncio de Alphonsus Filho retumba na eternidade. Nesta passagem, memento: vida vivida, esquecimentos. De todos os ofícios – administrador público, procurador – lembro-me de duas ausências: poeta e família. São as duas fontes dissipadas que ficam.

            Como poeta, era demiurgo entre o corpo e a poesia, fina casca de ovo, fonte de criação de vidas. Autor de mais de vinte livros, era Alphonsus Filho, como já o disse em sua “Inscrição”, o “décimo quarto filho/de um poeta”[2].

Não tenho como não acompanhar a dor de Cecília Meireles, em carta endereçada a Alphonsus Filho: “Às vezes penso que a invenção da vida só é perdoável pela existência dos Poetas. Naturalmente, isso é uma grande blasfêmia, eu sei; mas o mundo está tão negro!”[3] Não muito pela densidade do mundo, mas pela força do poeta e da poesia, pela cor do universo, na música dos grandes artistas, brindou-nos o mundo de carne e sonho de Alphonsus Filho, na indelével linhagem de seu pai; o dia agora é de ouro, através da reinvenção da sua poesia[4]. Nosso grande Drummond já disse sobre Alphonsus Filho: o “filho de Alphonsus de Guimaraens poderia ser outra coisa senão habitante da Poesia? [...] Voz que nos enriquece com sua melodia de órgão e flauta transversa, buscando conciliar os desconcertos do mundo e abrir um caminho de céu a céu, entre sombras”[5]. Poeta da claridade e da sombra, ciente da finitude de nossos dias, ainda assim clamava a “Luz que não se apaga,/luz que tanto brilha”[6]. Sobrinho-neto, no acolhimento das montanhas de Minas Gerais, recebi de tio Afonso, em 1999, ávido por me aproximar de meu parente-poeta, uma carta na qual ele transcrevia um poema seu: “Maravilha de estar. O mar pulsando,/a manhã sobre as árvores cantando/e a luz que se vai lúdica pousando/e se apagando e mais iluminando./Maravilha do instante. Ser o instante,/um só instante que a fluir do encanto/de existir tece a luz do próprio alento/e se refaz nesse estremecimento/de asa e manhã e rio e luz arfante,/de casta vida dissipada em canto”[7]. Aí a família se misturou em poesia. Não foram esses versos e os do primo Afonso Henriques Neto o mote de meus neófitos versos, a força motriz de reinvenção subcutânea do fazer poético? Sim. São essas as palavras que nunca disse.

            E da família me lembro, de pequeno, de tias, do tio Guy, do tio Afonso na inauguração do Museu Casa Alphonsus de Guimaraens em Mariana e no aniversário de 90 anos do primeiro. Lembro-me do lançamento de seu livro sobre o pai simbolista. Lembro-me das ausências. E, tio Afonso, lembro-me de você, eu, de longe, distante, voz efêmera, repito suas palavras: “Deus do céu, a vida/como dissipá-la,/mesmo dissipada?”[8].  

            De sua existência, muito há o que falar e muito há o que descobrir. Deixo isso para um outro alguém. Que se faça o que a busca de auto-conhecimento produziu em Alphonsus Filho ao escrever Alphonsus de Guimaraens no seu ambiente. Eu, do meu lado, só não queria ficar calado, como muitos membros da grande confraria dos reinventados pela poesia dos Guimaraens.

            Alphonsus Filho, encontrando Alphonsus Pai, celebrarão a poesia enquanto reinvenção do mundo que existirá a partir deste “até breve” – cheio de gratidão – a este nosso “Lume de estrelas”[9].




[1] FILHO, Alphonsus, Balada dos moços dos tempos de antanho in O Tecelão do Assombro, 2000.
[2] Ibid., Inscrição in Poemas, 1998.
[3] Trecho de carta de Cecília Meireles ao poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, de 21 de agosto de 1954.
[4] FILHO, Alphonsus de Guimaraens, Poesia e origem in O Mito e o Criador, 1952. 
[5] Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 3 de junho de 1978.
[6] FILHO, Alphonsus de Guimaraens, Luz que não se apaga... in O Irmão, 1949.
[7] Ibid., Fulgurância in Poemas, 1998.
[8] Ibid., Manuel Bandeira visita a viúva de um poeta in Nó, 1981.
[9] Nome de seu livro de 1939, Lume de Estrelas.

  
Também, em meu livro “Onde (poeira pixel poesia)”, publiquei o poema abaixo:

Alphonsus de Guimaraens Filho

e agora poema não é luz
nem carne? desrazão.
assim mais importante do que todas as notas sujas
do comércio de injustiça.  
agora que o irremediável aconteceu
de dante a bukowski ana c. musa musa
carruagens não são movidas a cavalo.
folheio raridades: livros com autógrafos e poeira
(alguém lembrará o pó no livro veludo nos dedos?)
problema agora é outro: repetição irrefreável da digitação.
folheio seus versos e grito à poesia
por que sobreviver ao homem
não deixá-lo viver? 
já não cansamos de Père Lachaise Saudade e cadeiras
vazias?
onde está o grande grito-mundo?
eis que milagre acontece:
folheio livros e páginas dissolvem
no palpar de meus dedos como doce em minha boca
poemas osmoticamente não são mais matéria,
estão em mim eu os vivo e me torno mais humano.
Poemas vivem homens
vivem.


Viva o eterno Alphonsus de Guimaraens Filho, o primeiro poeta a ler meus versos (ele e Afonso Henriques Neto)!

domingo, 25 de agosto de 2013

CENTENÁRIO DE ALBERT CAMUS - MEU POEMA "TATUAGENS"


Aproximando-se do centenário do nascimento de Albert Camus (07/11/1913), coloco, hoje, um poema meu publicado em meu livro “Onde (poeira pixel poesia)”. Nele vêm os espantos da experiência de encontros que eu tive, no ano de 2004, quando ainda morava em Paris, com uma brasileira que se exilou na França na época da ditadura militar no Brasil. Ela havia ficado 2 anos presa, sendo torturada (valeu aqui todas as formas, inclusive o estupro). Hoje, casada, alcóolatra – subterfúgio de naufrágio, tentativa de viver ou um simples salto para a morte que é também vida como Meursault – e com uma linda filha brasileira adotada. Porque os “ossos da noite doem nos vivos”, como disse o grande poeta Alphonsus de Guimaraens Filho.


  
Tatuagens

Espelhos dos exilados políticos na França.

no quadro negro
ou na casa antiga
ou na rua apagada
a porta aberta
um cisco passou
pelo sol na sua nudez.

poucos homens
flutuantes com flautas
libertados das torres de marfim
            (ou dops)
sentiram o gosto
e valor do imperceptível.
(outros já não viam ou saboreavam)

o jovem indiana jones
já velho e livre
no vagão do trem
sacudia do corpo
serpentes falsamente letais.

são jorge na órbita do ínfimo
digladiava com lança
uma vida suja e cinza
que se instaurava
no aquário da vida madura
               (em vão)

toda bebida suor
de diversões e exageros
passava e se afogava
nas memórias do corvo
que batia à porta.

todos os homens mortos
todos os medos
putrefavam aromas
de tatuagens do fim.

nunca disseram a Meursault
que palavras de giz
nas lousas de ontem
poderiam ser eternas
grades.
(Camus, estrangeiro, sua vida sempre
fora um salto para a morte?)

alguma vez os generais choraram?
alguma vez chorarão?
nem mesmo o transe do pixel neutraliza
as condecorações das poeiras de sangue.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

CAIPIBYTES - LUCAS GUIMARAENS



Poema presente em meu livro, "Onde (poeira pixel poesia)":
























Caipibytes

não fossem duras as linhas literárias de raskólnikov
não aumentassem os impostos sobre dias de poluição
não fosse rotineira a caçamba de entulhos
estacionada frente à casa fechada

eu poderia oferecer cavalos mais velozes
e brumas mais intensas nesta grande história.
não fosse a imensidão nunca me perderia
dentro da embarcação individual de relações
entre a faca que sangra e o pixel que divide
sua existência com sonhos natimortos.    

a singela paisagem do momento é uma varanda
de vento e olhar no horizonte.
ou estantes de pergaminhos manchados
pelo corpo transbordado de tantas caipibytes.

                        (a resposta é fato e flutua entre mofos e novas batidas)