quarta-feira, 31 de julho de 2013

MILTON NASCIMENTO E ALPHONSUS DE GUIMARAENS

Como não poderia deixar de ser, para quem me conhece, sabe da imprescindibilidade de duas figuras, de igual tamanho, cada uma em seu universo, para que meu próprio universo sensível pudesse existir: Milton Nascimento e Alphonsus de Guimaraens. São só dois lados da minha viagem... Alphonsus, o poeta simbolista, meu bisavô, transgressor como ele só, manejador inigualável do cristal da linguagem, louvado por Oswald de Andrade, Mario de Andrade (que foi visita-lo, ainda quando Mario era desconhecido, na cidade de Mariana, Minas Gerais), Drummond (que fez vários poemas em homenagem a Alphonsus sendo, o mais conhecido, "Luar para Alphonsus"): seus versos são as primeiras palavras que escutei; Milton Nascimento: sua nova estética (sim, sempre nova!), sua transgressão, sua grandeza genial, marco mundial inevitável de um paradigma até então inexistente. Como ser humano, ele é um nome-tudo. Quem o conhece sabe: a grandeza é ainda maior quando falamos de Bituca.



Bituca e Lucas Guimaraens
Alphonsus de Guimaraens 

Para estes dois, publiquei, no meu livro de 2011, "Onde (poeira pixel poesia)" - ed. 7Letras -, o poema abaixo: 

Contra as palavras doces aprisionadas

para Milton Nascimento e Alphonsus de Guimaraens

sentimentos são de terra e os homens podem ser tristes eu sei
as manhãs podem ser internações e desrazão
as noites são tolas damas a enclausurar entre cordoalhas fagulhas de solidão.

mas palavras que são pixels e pássaros
voam dos pés às mãos e não me venha falar que a beleza não existe
os olhos do sonhador são a lucidez do garimpo de delicadezas
curvas de carne ou terra ou pedra traçam o caminho dos corações arrebatados.

é no sertão aquele lago.
com a mala de vendedor ambulante o Cantor e o Poeta doam seus sonhos.

                                                                                    (de coração)

Aliás, no lançamento de meu livro, no Rio, tive a presença de uma grande família:

Da esquerda para direita: Ricardo Vogt (irmão de sempre, violonista brasileiro radicado nos EUA com quem Bituca lança, em breve, um maravilhoso cd de canções inéditas em parceria), Jajá (irmã de Bituca), Milton Nascimento, Ewerton Maciel (meu irmão-cunhado),  Camila (irmã de afinidade) e Paula Guimaraens (minha irmã).
Bituca e eu

Da esquerda para direita: Ricardo Vogt (irmão de sempre, violonista brasileiro radicado nos EUA com quem Bituca lança, em breve, um maravilhoso cd de canções inéditas em parceria), Jajá (irmã de Bituca), Milton Nascimento, Ewerton Maciel (meu irmão-cunhado),  Camila e Albert e, entre eles, Paula Guimaraens (minha irmã).


Por fim, como que irmanando estes dois artistas, o delirio tem notas musicais. No Bituca Studio, emoção em escalas de poesia e melodia, descontrole de emoções, "Ismália", de Alphonsus de Guimaraens, nas vozes e notas de Milton Nascimento, Gastão Villeroy, com a maravilhosa gaita de Cabriel Grossi.

 



Em 2010, no Galpão Cine Horto, realizei um workshop entrelaçando o simbolismo de Alphonsus de Guimaraens com a obra de Milton Nascimento e alguns letristas do Clube da Esquina. Depois, com calma, posto aqui algo a respeito. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

CANÇÃO DO ESTRANGEIRO / CHANSON DE L'ETRANGER - Edmond Jabès

O silêncio e a areia de Edmond Jabès. Escritor da língua francesa e de origem egipto-judaica. 





CANÇÃO DO ESTRANGEIRO
(Edmond Jabès - *tradução: Lucas Guimaraens)

Eu estou em busca de um homem que não conheço,
que jamais foi tanto eu mesmo
quanto depois que eu o procuro. Tem ele meus olhos, minhas mãos
e todos os pensamentos semelhantes
às ruínas deste tempo?
Temporada de mil naufrágios,
o mar deixa de ser o mar,
transformado em água gelada das sepulturas.
Mas, mais longe, quem sabe mais longe?
Uma menina canta nos confins e reina a noite sobre as árvores,
pastora no meio das ovelhas.
Extraiam a sede do grão de sal
que nenhuma bebida sacia.
Com as pedras, um mundo rói
por ser, como eu, de lugar algum.


CHANSON DE L’ÉTRANGER
(Edmond Jabès)

Je suis à la recherche d’un homme que je ne connais pas,
qui jamais ne fut tant moi-même
que depuis que je le cherche. A-t-il mes yeux, mes mains
et toutes ces pensées pareilles
aux épaves de ce temps ?
Saison des mille naufrages,
la mer cesse d’être la mer,
devenue l’eau glacée des tombes.
Mais, plus loin, qui sait plus loin ?
Une fillette chante à reculons et règne la nuit sur les arbres,
bergère au milieu des moutons.
Arrachez la soif au grain de sel
qu’aucune boisson ne désaltère.
Avec les pierres, un monde se ronge
d’être, comme moi, de nulle part.

Eu sonhei tanto contigo / J'ai tant rêvé de toi - Robert Desnos

Iniciando este blog sem, de fato, saber qual será seu futuro e qual será meu fôlego para alimenta-lo, começo com uma tradução minha de um belíssimo poema do surrealista francês Robert Desnos (1900-1945). Na foto, seu último registro, em 1945, no campo de concentração, logo após o Dia da Liberação e pouco antes de sua morte por tifo.



EU SONHEI TANTO CONTIGO
(Robert Desnos 1926 - * tradução Lucas Guimaraens)

Eu sonhei tanto contigo que tu perdes tua realidade.
É ainda tempo de alcançar este corpo vivo
E beijar nesta boca o nascimento
Da voz que me é cara?

Eu sonhei tanto contigo que meus braços habituados
Abraçando tua sombra
A se cruzar sobre meu peito não se dobrariam
Sobre o contorno do teu corpo, talvez.
E que, diante da aparência real do que me assombra
E me governa há dias e anos,
Eu me tornarei uma sombra sem dúvida.
Ó, balanças sentimentais.

Eu sonhei tanto contigo que não mais há tempo
Sem dúvida que eu desperte.
Eu durmo em pé, o corpo exposto
A todas as aparências da vida
E do amor e tu, a única
Que conta hoje para mim,
Eu poderia tocar menos tua fronte
E teus lábios do que os primeiros lábios
E a primeira fronte que vieram.

Eu sonhei tanto contigo, caminhei tanto, falei,
Deitei com teu fantasma
Que somente me resta, talvez,
E no entanto, ser fantasma
Dentre os fantasmas e mais sombra
Cem vezes que a sombra que passeia
E passeará alegremente
Sobre o quadrante solar de tua vida.


J'AI TANT RÊVÉ DE TOI
(Robert Desnos)

J'ai tant rêvé de toi que tu perds ta réalité.
Est-il encore temps d'atteindre ce corps vivant
Et de baiser sur cette bouche la naissance
De la voix qui m'est chère?

J'ai tant rêvé de toi que mes bras habitués
En étreignant ton ombre
A se croiser sur ma poitrine ne se plieraient pas
Au contour de ton corps, peut-être.
Et que, devant l'apparence réelle de ce qui me hante
Et me gouverne depuis des jours et des années,
Je deviendrais une ombre sans doute.
O balances sentimentales.

J'ai tant rêvé de toi qu'il n'est plus temps
Sans doute que je m'éveille.
Je dors debout, le corps exposé
A toutes les apparences de la vie
Et de l'amour et toi, la seule
qui compte aujourd'hui pour moi,
Je pourrais moins toucher ton front
Et tes lèvres que les premières lèvres
et le premier front venu.

J'ai tant rêvé de toi, tant marché, parlé,
Couché avec ton fantôme
Qu'il ne me reste plus peut-être,
Et pourtant, qu'a être fantôme
Parmi les fantômes et plus ombre
Cent fois que l'ombre qui se promène
Et se promènera allègrement
Sur le cadran solaire de ta vie.